Showing posts with label Stanley Kubrick. Show all posts
Showing posts with label Stanley Kubrick. Show all posts

Tuesday, March 13, 2012

STANLEY KUBRICK | LOLITA

Um professor de meia-idade que leciona em uma Universidade, se apaixona loucamente por uma ninfeta de 14 anos. Baseado no polêmico romance de VLADIMIR NABOKOV e dirigido por STANLEY KUBRICK (LARANJA MECÂNICA).
Foi necessário um remake ridículo e artificial do diretor ADRIAN LYNE (ATRAÇÃO FATAL/9 Semanas e meia de Amor) para que esta fita resistisse lindamente ao tempo. Respeito em número e grau esta primeira versão do aclamado, dispensa mais comentários, STANLEY KUBRICK (ainda jovem e em ascensão) em parceria com o produtor JAMES B. HARRIS (GLÓRIA FEITA DE SANGUE/O GRANDE GOLPE – também dirigidos por Kubrick), neste terceiro filme, Kubrick e Harris quebram tabus e causam furor na sociedade americana dos anos dourados, mesmo que o ano ainda fosse 1962. Convidam o próprio autor do livro VLADIMIR NABOKOV, acusado durante muitos anos por ter escrito uma prosa pornográfica (LOLITA chegou a ser banido em muitos países) para adaptar o roteiro (um dos poucos filmes de Kubrick em que o cineasta não escreve o script. Os outros também foram: Medo e Desejo [1953] e Spartacus [1960]) que conta a trama de um professor divorciado de meia-idade Humbert (JAMES MASON), que veio da Inglaterra para lecionar literatura na cidade de Ramsdale, New Hampshire (EUA). Ele procura uma casa na qual possa alugar por alguns meses e conhece a dona do local, uma mulher viúva e também de meia-idade Charlotte Haze (SHELLEY WINTERS). Depois de algum tempo, ele acaba se casando com Charlotte, porém, o motivo pelo qual casou é para poder ficar perto de uma ninfeta deslumbrante chamada Lo... LOLITA (SUE LYON). Esta moça é filha de Charlotte e responsável por fazer todos os homens (geralmente mais velhos) ficarem loucos por ela. Uma ninfa provocante, sensual e sarcástica. Além de muito inteligente, características que deixam sua pobre mãe, a viúva faminta e carente, desconcertada e enciumada por ela. A relação da filha, mãe e padrasto se torna cada vez mais perigosa, mas Kubrick suaviza tudo isso, deixa o seu filme mais nas entrelinhas e divertido. Ou seja, não há nenhuma cena de nudez sequer ou mesmo de sexo!

Nos fervorosos diálogos, percebemos todas as insinuações. Aliás, a fita não se permite ser vazia e clichê com cenas de transas calorosas , como na segunda versão.


Ainda na história aparece um sujeito louco, (também pela glamorosa LO). Ele é Clare Quilty, interpretado magistralmente pelo camaleão PETER SELLERS (A PANTERA COR-DE-ROSA) e que voltaria a trabalhar com o diretor em DR. FANTÁSTICO (1964). Sellers faz este sujeito, um malandro desonesto, que se envolveu com a garota antes de Humbert e que se disfarça de vários personagens para poder seguir Humbert quando esta com Lolita em algum Drive-In ou Motel. Dois gigantes em cena, Mason e Sellers, e a cada revisão fica ainda melhor de se assistir.

Kubrick começa o seu filme de uma maneira incomum à época, colocando o final da trama logo no começo e depois o desenrolar que chega ao ponto de partida. Um artifício que muitos acham que foi Quentin Tarantino que inventou com a cena da lanchonete em PULP FICTION.

É marca registrada de Kubrick lhe permitir fazer auto-referência (como na loja de discos em Laranja Mecânica com a capa do vinil de 2001), aqui há uma fala de Sellers brincando com o personagem de Mason , dizendo que é SPARTACUS [fita de Kubrick de 1960] (“Sou Spartacus! Eu estou aqui para libertar os escravos?”). A cena se passa em uma mansão bagunçada e vemos um bêbado decadente e um louco decadente lhe apontando uma arma. Ambos foram vencidos por LOLITA. Humbert vai acertar as contas com Quilty e a cena do tiro no retrato da morte é um momento antológico. Outra cena inesquecível é quando Humbert vê Lolita pela primeira vez (o que fez com que ele decidisse alugar um cômodo na casa de Charlotte), a adolescente esta tomando sol no jardim, seminua e nada inocente. Esta imagem, este plano extraordinário, marcou o imaginário de gerações que assistiram ao filme. Só com esta fotografia de Lo, o filme de Kubrick impõe respeito.

Kubrick voltou a explorar o tema da obsessão sexual, de certa maneira, em DE OLHOS BEM FECHADOS (seu canto do cisne), mas 37 anos atrás, ele teve que usar uma linguagem mais profunda, humorada, leve e subliminar, idêntica a própria obra de Nabokov. Assim, para ter essa fórmula, ele convidou o autor, que mais conhece a sua história, para transformar a escrita em imagem.

E o que dizer da fantástica Shelley Winters como Charlotte? Uma atriz estupenda (lembra muito HELEN HUNT, esteticamente falando). Ela tem as melhores falas e é a personagem mais carente, que nega ser mãe daquela menina com nome lírico e melodioso. Uma vítima da conveniência de um casamento com um homem iludido de amor e obcecado por uma garota quente como pimenta e que ao mesmo tempo, é carente de mãe e pai. SUE LYON sumiu do cinema, seu último filme foi uma participação no trash de 1980 – ALLIGATOR, o Jacaré Gigante (clássico das sessões da tarde). Embora tenha feito alguns cults como A NOITE DO IGUANA (1964) e SETE MULHERES (1966) foi LOLITA que marcou sua carreira. O papel principal também foi oferecido para TUESDAY WELD e MARLON BRANDO foi chamado para interpretar o professor.



LOLITA, um nome adorável, um diminutivo poético, segundo Quilty. Em um filme sensual, provocante, escandaloso e que não precisa do óbvio explícito. Basta um plano Kubrikiano, um olhar e um sorriso naquele belo celulóide em preto e branco.
A música “YA YA”, composta por Nelson Riddle (do grupo de rock dos anos 50-60 The Ventures) marcou neste filme e se tornou um clássico hit, também na voz de Sue Lyon na versão “Lolita Ya-Ya”.
Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e venceu o Globo de Ouro, a revelação Sue!

Como eles sempre fazem um filme de Lolita?
Kubrick se foi para responder esta pergunta.


_____
EUA – 1962
DRAMA/ROMANCE
WIDESCREEN
153 min.
P&B
18 ANOS
WARNER
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
_____


Sunday, October 30, 2011

STEVEN SPIELBERG| A.I. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL



Um menino-robô anseia em tornar-se um menino de verdade, como o Pinóquio, para recuperar o amor de sua mãe humana. Baseado no conto de BRIAN ALDISS “Superbrinquedos Duram o Verão Todo.”
No futuro não muito longe de nosso presente, as calotas polares "irão derreter" devido ao aquecimento global e o aumento resultante das águas dos oceanos, o que "afogará" todas as principais cidades litorâneas do mundo (eles citam: Nova York, Veneza, Amsterdã...) Assim sendo, a raça humana foi recolhida para o interior dos continentes já com sua tecnologia avançada no mundo artificial, chegando ao ponto de criar a imagem de sua semelhança, isto é, robôs com inteligência artificial, realistas e domesticáveis chamados de MECAS para servirem os humanos. Uma das empresas do ramo robótico cria um robô-criança com a aparência do filho morto de um médico e cientista dono da corporação. O nome dele é DAVID, um garotinho artificial que é a primeira máquina a ter sentimentos reais, o que é um debate interminável: não acham que o robô era obsessivo demais? Se bem que o homem também é... Especialmente quando se trata de “um amor sem fim” que a pessoa tem que instalar usando um manual de instruções específico e irreversível recitando palavras doces como: tulipa, golfinho e decibel. Bom, um destes “Davids” é comprado por um casal que tem um filho com uma doença terminal e que esta no estado criogênico. A mãe é MONICA, uma mulher que no começo não esta certa quanto ao robozinho. Ela tem medo, o despreza, mas com o tempo acaba se apegando ao menino. Quando ela liga o botão de amar instantaneamente, David nutre um amor inexplicável por ela, sem fim! Ele não ama o pai e tampouco o irmão, quando o mesmo volta do coma e passa a morar na casa e ocupar o lugar do artificial de estimação.


David ama somente Monica. As mudanças começam radicalmente na presença do menino real que trata o menino-robô como um superbrinquedo, apenas. Isso culmina em uma competição entre irmãos para chamar a atenção da mãe que obviamente sempre atenderá ao filho de verdade. Assim os problemas de David e sua jornada para se tornar um menino de verdade começam. A partir do segundo ato é que o filme fica ainda mais interessante. Depois de ouvir de Monica a fábula do menino de madeira (inspiração assumida para esta estória) Pinóquio, clássico de Carlo Collodi, David, de maneira inocente, cria a fantasia de que se ele pudesse localizar a fada azul e lhe pedisse para se tornar em um menino de verdade, sua mãe finalmente pudesse amá-lo. Depois o filme explica que além da faceta do garoto ser a primeira máquina a nutrir sentimentos, foi também o pioneiro a conseguir sonhar, buscar os seus sonhos e nenhuma outra máquina havia feito, experimentado, sentido isso antes de David. Tudo também é muito questionável. Será que um dia a nossa máquina de lavar irá amaciar as nossas roupas com mais carinho? Ou a cafeteira irá fazer um expresso do jeitinho que todo mundo gosta? Ou quem sabe um dia a geladeira passe a gelar a água em cubinhos de coração!? Sonhos humanos e não das máquinas, compreende?
Nós depositamos os nossos sonhos quando criamos as nossas extensões. A extensão da nossa perna, por exemplo, é o automóvel. E, um dia o homem não sonhou em voar? Resultado: a aeronave!
Além do menino-robô aparece outro Meca, JOE, um robô-prostituto que atende mulheres solitárias substituindo dildos e homens. Joe ensina ao David como o mundo dos mecas funciona e ajuda o menino a encontrar a fada azul numa aventura noir futurista. Mas ele não é o grilo falante de David, e sim o ótimo ursinho pimpão: TEDDY que também “foi” um superbrinquedo e o bichinho tem voz de adulto e aconselha David a nunca botar o dedo na tomada. Certamente os personagens são carismáticos, tão bem delineados graças ao toque original de STANLEY KUBRICK. Por falar em Kubrick, seria ele o diretor de A.I., mas infelizmente o grande cineasta nos deixou pouco depois de concluir “De Olhos Bem Fechados” e o projeto caiu no colo de SPIELBERG. Aliás, Steven tem uma relação antiga com o projeto desde 1984 quando o misterioso Kubrick lhe apresentou o projeto pela primeira vez e contou sobre essa fábula futurista de seres artificiais. Spielberg disse que foi uma das melhores histórias que alguém já lhe contou e melhor ainda que este alguém seja um Stanley Kubrick.
Era a primeira vez que Stanley, que vivia uma amizade pessoal com Steven durante 15 anos, havia compartilhado com ele uma premissa para um filme. Segundo Steven: “...ele nunca havia me mostrado “Nascido Para Matar” ou “O Iluminado”, era a primeira vez que Stanley me mostrou uma história.” O motivo era simples, Kubrick sempre achou que Spielberg era o mais adequado para esta adaptação e teve a idéia de ser apenas o co-roteirista e produtor da fita que Steven iria dirigir. Pasmo com o convite, inicialmente Spielberg aceitou, mas trocando faxes diretos com Kubrick durante 10 anos trabalhando no projeto (um era o secretário do outro e mais ninguém tinha acesso ao material), elaborando storyboards, escrevendo o script, etc, no fim, já nos anos 90, Spielberg achou que esta história era ideal para Kubrick – tinha tudo para ser um filme realizado por ele (o próprio Steven disse que preferia), só que mesmo assim, ainda quando Kubrick era vivo, o mesmo mandava a direção para Steven. Ficou um jogando o filme na mão do outro até que finalmente, já na quase pós-produção de ‘Eyes Wide Shut’, Kubrick resolveu que iria ser o diretor e Spielberg o produtor. Bom, o resto vocês já sabem, a trágica morte de Stanley Kubrick em março de 1999 comprometeu A. I. quase que para sempre. Christiane Kubrick (esposa de Stanley) pediu pessoalmente ao Spielberg que ele o fizesse, ou então, segundo ela – o que disse na entrevista a produtora BONNIE CURTIS – “Esse filme jamais verá a luz do dia Steven, se você não o dirigir.” Portanto, para homenagear o amigo, Spielberg aceitou. Esse respeito que Steven tinha por Kubrick, toda uma admiração pelo saudoso cineasta e pelo fato dele ter amado esta história é claramente visto na fita, um filme que tem muito do toque de Kubrick (nos diálogos principalmente) e acabou sendo o melhor, provavelmente único, GRANDE FILME DE STEVEN SPIELBERG no século XXI (vamos esperar pelos próximos). Acho que Steven fez o seu filme menos pessoal aqui resultando numa fita bem diferente dentro da obra do cineasta. Claro, que mesmo assim, o roteiro (reescrito inteiramente por Spielberg) teve mudanças interessantes e ele adicionou o seu toque também, contudo, INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL é mais como “um filme presente” em memória de Kubrick (é dedicado para ele) que acabou sendo o responsável por adiar outros futuros projetos de Spielberg naquele período, que queria dedicar-se profundamente no filme. A.I. confirmou a aclamação de Spielberg ainda mais após o Oscar por O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998). Foi mesmo uma fase boa.O filme teve colaboradores de ambas às partes (de Kubrick e Spielberg) que imprimiram trabalhos inspirados em todos os departamentos artísticos. O artista conceitual CHRIS BAKER, na época contratado pessoalmente por Kubrick, continuou a trabalhar na elaboração dos ambientes futuristas. Acho os desenhos dele espetaculares que mostra um viaduto futurista com túneis em formato de faces que “engolem os automóveis” levando-os a “Rouge City” e também toda a arena do “Mercado de Peles”, uma das partes mais bacanas do filme. O produtor JAN HARLAN, de todos os filmes de Kubrick desde “Laranja Mecânica”, também produz o filme e, os artistas de sempre a serviço de Spielberg: o diretor de fotografia JANUSZ KAMINSKI sem duvida, em minha opinião, supera-se aqui colaborando com a fotografia e de todos os filmes do diretor, depois de A Lista de Schindler, é o melhor trabalho dele. A perspectiva da luz é fantástica, sobretudo no último ato.
O músico compositor JOHN WILLIAMS, também deixa a sua marca e que pela primeira vez, compõe algo diferente com música eletrônica que se converge com sua típica e fantástica música operística (o tema musical em que David é deixado na floresta é impressionante) e sem contar no trabalho da equipe dos estúdios de STAN WINSTON que faz toda a parte “artificial” do filme, construindo robôs que em parte são efeitos de CGI (Teddy, quando os robôs velhos estão procurando partes no ferro velho) e em parte realmente física e que também faz um trabalho crucial colaborando na maquiagem – sobretudo do personagem JOE que mudava de colorização em cada programa. Só uma coisa que Spielberg não abriu mão e dividiu créditos, o próprio roteiro. E concordo com ele. Como Spielberg era, além de Kubrick a única pessoa a entender a premissa, passar as idéias centrais a um outro roteirista seria um erro e provavelmente o filme perderia muita coisa e aquele toque original que Spielberg queria manter. Assim, depois de anos ele sentou e escreveu um roteiro completo (só havia feito isso em CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU). Claro que Steven é um daqueles diretores como Hitchcock que sempre não leva crédito pelos roteiros de todos os seus filmes. Ele colabora sim, bastante (como todo bom e competente cineasta deve interferir), mas segundo ele, os créditos que recebeu em alguns filmes (como POLTERGEIST) não deixavam de ser colaborações, a diferença é sentar e escrever um roteiro para um filme, sozinho. Ele o fez, e acho que Spielberg imprimiu um lindo trabalho de roteiro. Felizmente ele não só preservou Kubrick (se prestar atenção nas falas e se conhece os filmes do diretor decerto saberá o que estou dizendo), como também fez mudanças necessárias. No entanto, assim como Spielberg, acredito (e acho que todos os cinéfilos também) que A.I. ficaria ainda mais espetacular e filosófico totalmente nos moldes Kubrikianos.
Quanto ao elenco, acho que localizaram as pessoas certas começando por David. Segundo Spielberg: “HALEY JOEL OSMENT foi a minha primeira e última escolha.” E não é para menos! Depois de o guri ter encantado a todos no filme de M. Night Shyamalan – O SEXTO SENTIDO (1999), era correto que Haley, naquele momento, teria que ficar com o papel. É incrível como o garoto é bom, consegue emocionar pedindo a fada que lhe transforme em um menino de verdade, ou quando é deixado na floresta sem dó nem piedade (cena difícil), e mesmo quando fica irritado quando descobre que existem outros mecas como ele em uma linha de fabricação. Mas, a cena mais emocionante é quando ele diz que Monica era a mamãe dele e a abraça.Particularmente acho esquisito o surto dele em ter que se jogar, cometendo o suicídio, isso me provoca e perturba para entender a condição de amor que ele sentia. Isso confunde e se contradiz um pouco, confesso – ainda não sei se é proposital ou o que quer dizer – mas tudo vira uma espécie de obsessão quando David não encontra respostas matemáticas para o amor não correspondido. Ele tem tiques de querer a mãe só para ele em tempo integral, mesmo sendo doce e inocente, um fofo. Provocações à parte, o filme não deixa de ser vigoroso. JUDE LAW faz muito bem o gigolô-Joe com suas dancinhas imitando Fred Astaire e certamente é um galã envolvente, continua bonito. Acho FRANCES O´CONNOR excelente, e acredito que o papel da mãe humana seja o mais complicado de fazer. Uma mulher maternal dividida entre o seu cachorrinho de estimação e o próprio filho e no fim, cortando o seu coração de uma maneira meio fria, a fim de proteger o robozinho (ela ia devolver ele a empresa que o construiu, só que lá eles iriam o destruir já que a programação não tinha volta), o abandona na floresta e não olha para trás. É bem dúbio, como o é as obras de Kubrick em cada nuance. WILLIAM HURT deixa o seu jeito habitual presente ao interpretar o cientista, gosto dele, e BRENDAN GLEESON (da série HARRY POTTER) faz uma ponta como o dono do mercado de peles que detém a artificialidade, destruindo robôs para divertimento local.
Spielberg foi criticado por não terminar o filme no anfitecóptero em que mostrava David preso olhando uma imagem da Fada Azul no fundo do oceano. Ele resolveu avançar no tempo mostrando que os seres humanos estavam extintos e que os robôs (com cara de ET`s) se tornaram os dominantes do Planeta Terra a 2 mil anos no futuro! Bom, eu gosto deste novo e último ato proposto por Spielberg e sem ele o filme teria menos ainda o seu toque. É interessante saber que os robôs tratam os humanos como nós tratamos os dinossauros, como seres pré-históricos. Assim, a fita se torna ainda mais um panfleto de ficção-científica. E, é deslumbrante também ver todos aqueles efeitos visuais e Frances O´Connor em mais um último momento em cena doméstica com Haley Joel Osment. Aqui confirma a química que eles tinham como mãe e filho, uma relação nem um pouco artificial. Emociona quando ela morre e ele volta a sonhar...

Wednesday, October 19, 2011

STANLEY KUBRICK EM DOSE DUPLA

GLÓRIA FEITA DE SANGUE | DR. FANTÁSTICO



AS TRINCHEIRAS DA MORTE
Quando os soldados em plena I Guerra Mundial se recusam a continuar com um ataque inimigo impossível, seus generais superiores decidem acusá-los de motim e covardia. Mas será mesmo que os pobres e inocentes soldados desertaram? 
É mais uma fita impressionante de KUBRICK, agora nos campos de batalha na França em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial. Depois de dois filmes noir policiais: A MORTE PASSOU POR PERTO ( KILLER´S KISS , 1955) e O GRANDE GOLPE ( THE KILLING, 1956), o famoso diretor de Laranja Mecânica e Barry Lyndon conta esta história problemática e injusta sobre a guerra.
Mais uma real e dramática crítica ao assunto que foi revisitado pelo diretor em DR. FANTÁSTICO (1964) e, em NASCIDO PARA MATAR (1987). Aqui, o lendário ator KIRK DOUGLAS (em impressionante atuação, provavelmente a melhor de toda a sua carreira [é até melhor que SPARTACUS]), interpreta o Coronel DAX um homem que tem que lidar com as futilidades da guerra, sempre apresentadas pelo cineasta de uma maneira irônica, porém aqui, nem um pouco debochada como em Dr. Strangelove  ou em Full Metal Jacket. Na verdade essa trama se passa quase o tempo inteiro nas trincheiras da morte (em uma formidável sequência dentro das trincheiras que começa mostrando pelo ponto de vista subjetivo do personagem) com este coronel (Douglas) que tem que tomar decisões importantes e justas, além de lidar com a posição inimiga custando à vida de vários soldados em uma estratégia militar suicida que propositalmente se destinou ao fracasso (o problema era mais político que patriótico). Os culpados, os verdadeiros vilões eram os generais, superiores de Dax, e a fim de acobertarem o seu erro fatal, eles inventam uma contra-ofensiva a três dos próprios soldados, obviamente inocentes, e o acusam de covardia, motim e outras idiotices e injúrias. 
Praticamente o filme nem mostra um julgamento honesto, assistimos friamente, com toda aquela linguagem Kubrickiana, o assassinato de três homens inocentes, o filme inteiro. Cada acusação era mais dolorosa que vê-los, infelizmente, ao término da obra, fuzilados. Mas ao longo do filme, Douglas, com sua presença heróica faz de tudo para defender os réis, visto que, Dax era advogado na vida civil e usa os seus dotes persuasivos para dialogar contra a promotoria de farda. Mas aos poucos ele vai percebendo as tramóias e acaba sendo vencido por homens mentirosos uniformizados e corruptos para supostamente lutar e defender o seu país.
Um dos grandes momentos da fita de Kubrick
GLÓRIA FEITA DE SANGUE (ou CAMINHOS DA GLÓRIA), o nome em português já traduz muito bem, é um filme estéril. A narrativa é típica de Kubrick, sem atalhos, fria, lindamente fotografada, escrita e com planos de câmeras fantásticos, sobretudo como já havia citado as cenas dentro das trincheiras que lembram muito a sequência do labirinto no gelo em O ILUMINADO, e as cenas grandiosas e ao mesmo tempo estilizadas das batalhas. É a primeira incursão de Kubrick a uma produção maior, polêmica e seriamente dramática, baseada no romance “Paths Of Glory”, de HUMPHREY COBB. É mesmo uma obra prima, que acusa a política militar descaradamente, sem rodeios ou palavras subscritas. Uma odisséia nos campos de guerra.

Há momentos de muita tensão quando os prisioneiros estão implorando pela vida e pouco antes do fuzilamento, é cruel o caminho que eles fazem a glória. Pelas acusações eles foram desertores, mas na verdade, os verdadeiros heróis, manchados de sangue, o próprio sangue, estão nas páginas da história. Acho que a fita não é uma sessão para todos, além do que, ela tem tons noir, o primeiro estilo europeu no gênero guerra, e provavelmente nenhum outro diretor futuramente conseguiu acertar o tom. Kubrick discute o assunto e não está interessado em grandes tomadas aéreas ou milhares de homens se matando uns aos outros ao estilo Lewis Milestone e o seu NADA DE NOVO NO FRONT ( All Quiet on the Western Front, 1930 – Universal Pictures). Ou seja, é o close no olhar do homem. O que mente, acusa, protege e chora. Aliás, em matéria de emoção, o filme traz um dos momentos mais bárbaros em sua cena final, que mostra o grande coração que Kubrick tinha (apesar de sua fama ranzinza) quando sua então esposa CHRISTIANE KUBRICK aqui creditada como SUSANNE CRISTIAN (ainda não eram casados à época – só depois das filmagens), faz uma cantora alemã, e quando canta uma bela canção, deixa todos os homens daquela sala em prantos. Um momento digno antes de voltarem aos campos de batalha. Emocionado e espiando da janela, Dax, um Douglas que se mantêm firme, ordena que lhe dêem mais tempo aos seus homens. E o filme acaba. E Kubrick, para sempre eterno. Uma glória feita em 1957 que não morre jamais!
Christiane Kubrick deixa os soldados em prantos!
Nem se quer foi indicado ao Oscar.

_____
EUA – 1957
DRAMA/GUERRA
STANDARD
84 min.
P&B
MGM/UNITED ARTISTS
16 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
_____



BRYNA PRODUCTIONS E UNITED ARTISTS APRESENTAM
UMA PRODUÇÃO HARRIS-KUBRICK CORPORATION
KIRK DOUGLAS EM
PATHS OF GLORY
CO-ESTRELANDO RALPH MEEKER. ADOLPHE MENJOU
COM: GEORGE MACREADY. WAYNE MORRIS. RICHARD ANDERSON
Também Estrelando Joseph Turkel. Jerry Hausner
E Susanne Christian 
Música Original por GERALD FRIED
Fotografado por GEORGE KRAUSE Montagem EVA KROLL
Direção De Arte LUDWIG REIBER Figurinos ILSE DUBOIS
Escrito por
STANLEY KUBRICK. CALDER WILLINGHAM e JIM THOMPSON
BASEADO NO ROMANCE DE HUMPHREY COBB
Produzido por JAMES B. HARRIS Dirigido por STANLEY KUBRICK
© 1957 Harris-Kubrick Production Corp./ UMA PRODUÇÃO BRYNA
Distribuído por UNITED ARTISTS


ALERTA VERMELHO: RISOS
Um general insano inicia um processo destrutivo: o holocausto nuclear em plena Guerra Fria em que uma sala de guerra com políticos (incluindo o Presidente Americano) e generais freneticamente tentam impedir a questão diplomaticamente.
DR. FANTÁSTICO é o filme enfadonho mais legal que já tive o privilégio de assistir. Aliás, em matéria de STANLEY KUBRICK, qualquer filme “chato” tem a audácia de chamar atenção. Baseado no livro RED ALERT (Alerta Vermelho) escrito por PETER GEORGE que colabora no roteiro adaptado de sua obra, o filme é uma sátira, comédia de humor negro sobre a guerra.
E não poderia ser feita no melhor período: a Guerra Fria e toda a paranóia militar e civil americana sobre o uso de bombas nucleares e uma possível Terceira Guerra Mundial que graças a Deus nunca aconteceu (mas se somarmos todas as Guerras, enfim... fiz uma piada infame). Kubrick foi genial ao abordar esta história e a fita é mais um testamento do cineasta sobre a guerra, o seu tema predileto (FEAR AND DESIRE [1953] /GLÓRIA FEITA DE SANGUE [1957] /NASCIDO PARA MATAR [1987]). Aqui, Kubrick não vai as trincheiras ou até as selvas do Vietnã e concentra a ação em uma cúpula (lindo set de KEN ADAM diretor de arte dos filmes de 007), uma espécie de “reunião de guerra” para decidir as coisas de forma diplomática e mesmo o filme, tem poucas cenas de tiroteio militar que acabam sendo estilizados.
Provavelmente a grande atração de Dr. Fantástico é a presença do fantástico PETER SELLERS em três diferentes papéis! O filme começa com este ataque nuclear acidental ("entre aspas") depois que um general louco, o ótimo STERLING HAYDEN de outro filme de Kubrick, o noir “O GRANDE GOLPE” (1956) esta convencido de que os comunas (comunistas assim chamados) estão poluindo os preciosos fluidos corporais de toda a América! Só nesta cena começo a dar risada. E me pergunto? Foi esse o motivo do general ter ordenado um ataque nuclear à União Soviética?
Ai entra em cena o genial Sellers como o Capitão Mandrake que procura desesperadamente uma maneira de suspender o ataque, nem que para isso tenha que ligar de uma cabine telefônica pública a cobrar para o Presidente ( ou seja, para ele mesmo – muitos risos nesta cena). Paralelamente o Presidente Americano (o Sellers menos engraçado) pega o telefone de emergência e tenta convencer um bêbado soviético (mais risos) que impedir o ataque seria um erro, mas na sala de reunião está presente um conselheiro pessoal do presidente, que por acaso é um “ex-nazista cientista”, o Dr. Strangelove (Sellers excelente aqui) que confirma com todas as letras em um sotaque alemão típico, a existência da tão falaciosa “Máquina do Juízo Final” (muito comentada na época da Guerra Fria) que seria uma arma final, um dispositivo secreto feitos pelos soviéticos que retaliaria toda a raça humana, garantindo assim o seu extermínio. 

O filme ainda conta com a atuação exímia de GEORGE C. SCOTT (de Patton, Rebelde ou Herói? [1970]) no papel do general “Buck” que é um sujeito tipicamente americano e que dorme com a secretária que por sua vez faz atendimento telefônico seminua em sua cama de hotel tomando um bronzeado artificial. Scott tem ótimos momentos super engraçados nesta cúpula provando para o presidente ao contrário de tudo que possa vir dos soviéticos (um homem que sofre de Xenofobia), ainda mais quando um deles esta nesta reunião comendo salsicha e fumando charuto, o excelente PETER BULL como o embaixador russo Sadesky. Na verdade o filme é realmente um picadeiro onde a comédia é soberana. Ela não é típica, são piadas sutis e inteligentes com linguagem de guerra e personagens caricatos.
Peter Sellers nos melhores papéis de sua vida. Kubrick soube explorar bem o ator
Quanto a Sellers? Bom, eu particularmente gosto mais dele fazendo o Dr. Fantástico que um dia já foi nazista, mas que não deixa de ser Alemão que tem aqueles tiques saudosos “Heil Hitler” e fica numa cadeira de rodas dizendo absurdos. Muitos deles sem sentido! A fita é um verdadeiro clube do bolinha (só a personagem da secretária – única mulher que aparece) e é sem dúvida o trabalho mais pessoal de Kubrick. Uma verdadeira jornada ao próprio umbigo, um filme que o cineasta fez para si mesmo. Assim sendo, provavelmente, Dr. Fantástico seja o seu filme na qual o público, genericamente falando, tenha visto com pouca frequência. Eu mesmo só o vi duas vezes na minha vida. Acho que basta assistir a cada dois anos, dependendo do humor, visto que, é uma comédia extremamente datada, estilizada e temática.
O filme começa chato e vai melhorando aos poucos. Aqui reconhecemos os primeiros toques Kubrickiano: os típicos “Zooms”, posicionamento de câmera e a narrativa em si, inspirada no romance do ex-tenente da Força Aérea Inglesa, PETER GEORGE que publicou o seu livro “Red Alert” em 1958 com o pseudônimo de “Peter Bryant” – tempos difíceis. O curioso é o livro ter tido pouca reverberação entre os americanos, mas ter tido grande impressão nos dois maiores estrategistas de guerras nucleares britânicos, Thomas C. Schelling e Herman Kahn. Isso prova como a natureza da história serve apenas para os militares. Tudo é dito em códigos que civis nunca teriam acesso, e o filme inegavelmente, carrega a mesma cruz. 
Kubrick era um indivíduo intelectual e interessado na guerra. Portanto para ele o livro “Alerta vermelho”, assim como para os estrategistas militares, era um material de grande valia e viu-se então uma oportunidade de caçoar disso na sétima arte. Eu nunca li o livro, mas acho que ele, sendo uma obra estratégica de guerrilha, creio que não teria graça alguma. Certamente o roteiro é extremamente diferente do livro fazendo a leitura cômica mudando o tom e até mesmo o título para: DR. FANTÁSTICO Ou “Como Aprendi a parar de me preocupar e Amar a Bomba!” – subtítulo extremamente sarrista.
Enquanto Kubrick rodava LOLITA, o diretor já concebeu o seu próximo filme. Então, Dr. Fantástico também seria o projeto que confirmaria o fato de Kubrick ter se radicado na Inglaterra para sempre. Stanley conheceu o livro de George quando fez uma visita ao Instituto para Estudos Estratégicos de Londres. Lá o diretor do instituto, Allistair Buchan, mencionou o manuscrito para Kubrick.
Cena antológica!
Para reforçar a idéia apreensiva com a possibilidade de uma guerra nuclear começar por acidente ou loucura, Kubrick chamou o lendário cenógrafo KEN ADAM para trabalhar na elaboração dos sets. É mesmo um trabalho de tirar o fôlego, a cúpula de reuniões, a sala do general, os mapas estrategistas, tudo é sem dúvida um trabalho de mestre. Tudo isso remete as primeiras fitas de James Bond na qual Adam foi diretor de arte e Kubrick só o contratou (futuramente faria com ele BARRY LYNDON) depois de ter assistido e adorado 007 Contra o Satânico Dr. NO.

Esta obra me deixa estupefato. Nunca consegui amar um filme sequer do Alain Resnais (não é piada minha), mas Kubrick transforma um romance sério de suspense com tudo para ser chato em uma comédia-pesadelo fantástica com um ator tão maravilhoso como foi Peter Sellers, que é capaz de nos fazer rir com um peido.
Pickens e o seu rosto familiar


A famosa cena em que o piloto, o major “King” – feito pelo veterano astro de Western SLIM PICKENS tenta soltar a bomba nuclear montado em cima como um caubói em seu cavalo, e quando consegue o feito fica em cima dela gritando histericamente, tornou-se antológica. Assim como a sequência final ao som de “Vamos nos encontrar novamente”. Um filme que transcende a linha do tempo. E Um alerta engraçado.



Ironicamente, o filme foi apenas indicado a quatro Oscar: Filme, Direção, Ator (Sellers) e Roteiro Adaptado. Uma piada de mau gosto!
O grande set de Ken Adam
_____
 INGLATERRA – 1964
COMÉDIA/GUERRA
FULLSCREEN
94 min.
P&B
COLUMBIA/SONY
14 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
_____



COLUMBIA PICTURES APRESENTA
UMA PRODUÇÃO DE 
STANLEY KUBRICK
PETER SELLERS. GEORGE C. SCOTT EM
DR. STRANGELOVE
OR: HOW I LEARNED TO STOP WORRYING AND LOVE THE BOMB

TAMBÉM ESTRELANDO: STERLING HAYDEN. Co-estrelando: KEENAN WYNN
SLIM PICKENS. PETER BULL. JAMES EARL JONES
E TRACY REED COMO “MISS FOREIGN AFFAIRS” - A secretária
ROTEIRO DE: 
STANLEY KUBRICK. PETER GEORGE e TERRY SOUTHERN
BASEADO NO LIVRO “RED ALERT” DE PETER GEORGE
Música Original LAURIE JOHNSON Fotografia de GILBERT TAYLOR
Montagem ANTHONY HARVEY Diretor de Arte KEN ADAM
Cenografia adicional PETER MURTON
Efeitos Especiais WALLY VEEVERS Produção Associada VICTOR LYNDON
    Produzido e Dirigido por   
STANLEY KUBRICK
© 1964 HAMK FILMS LTD. COLUMBIA PICTURES