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Tuesday, March 13, 2012

STANLEY KUBRICK | LOLITA

Um professor de meia-idade que leciona em uma Universidade, se apaixona loucamente por uma ninfeta de 14 anos. Baseado no polêmico romance de VLADIMIR NABOKOV e dirigido por STANLEY KUBRICK (LARANJA MECÂNICA).
Foi necessário um remake ridículo e artificial do diretor ADRIAN LYNE (ATRAÇÃO FATAL/9 Semanas e meia de Amor) para que esta fita resistisse lindamente ao tempo. Respeito em número e grau esta primeira versão do aclamado, dispensa mais comentários, STANLEY KUBRICK (ainda jovem e em ascensão) em parceria com o produtor JAMES B. HARRIS (GLÓRIA FEITA DE SANGUE/O GRANDE GOLPE – também dirigidos por Kubrick), neste terceiro filme, Kubrick e Harris quebram tabus e causam furor na sociedade americana dos anos dourados, mesmo que o ano ainda fosse 1962. Convidam o próprio autor do livro VLADIMIR NABOKOV, acusado durante muitos anos por ter escrito uma prosa pornográfica (LOLITA chegou a ser banido em muitos países) para adaptar o roteiro (um dos poucos filmes de Kubrick em que o cineasta não escreve o script. Os outros também foram: Medo e Desejo [1953] e Spartacus [1960]) que conta a trama de um professor divorciado de meia-idade Humbert (JAMES MASON), que veio da Inglaterra para lecionar literatura na cidade de Ramsdale, New Hampshire (EUA). Ele procura uma casa na qual possa alugar por alguns meses e conhece a dona do local, uma mulher viúva e também de meia-idade Charlotte Haze (SHELLEY WINTERS). Depois de algum tempo, ele acaba se casando com Charlotte, porém, o motivo pelo qual casou é para poder ficar perto de uma ninfeta deslumbrante chamada Lo... LOLITA (SUE LYON). Esta moça é filha de Charlotte e responsável por fazer todos os homens (geralmente mais velhos) ficarem loucos por ela. Uma ninfa provocante, sensual e sarcástica. Além de muito inteligente, características que deixam sua pobre mãe, a viúva faminta e carente, desconcertada e enciumada por ela. A relação da filha, mãe e padrasto se torna cada vez mais perigosa, mas Kubrick suaviza tudo isso, deixa o seu filme mais nas entrelinhas e divertido. Ou seja, não há nenhuma cena de nudez sequer ou mesmo de sexo!

Nos fervorosos diálogos, percebemos todas as insinuações. Aliás, a fita não se permite ser vazia e clichê com cenas de transas calorosas , como na segunda versão.


Ainda na história aparece um sujeito louco, (também pela glamorosa LO). Ele é Clare Quilty, interpretado magistralmente pelo camaleão PETER SELLERS (A PANTERA COR-DE-ROSA) e que voltaria a trabalhar com o diretor em DR. FANTÁSTICO (1964). Sellers faz este sujeito, um malandro desonesto, que se envolveu com a garota antes de Humbert e que se disfarça de vários personagens para poder seguir Humbert quando esta com Lolita em algum Drive-In ou Motel. Dois gigantes em cena, Mason e Sellers, e a cada revisão fica ainda melhor de se assistir.

Kubrick começa o seu filme de uma maneira incomum à época, colocando o final da trama logo no começo e depois o desenrolar que chega ao ponto de partida. Um artifício que muitos acham que foi Quentin Tarantino que inventou com a cena da lanchonete em PULP FICTION.

É marca registrada de Kubrick lhe permitir fazer auto-referência (como na loja de discos em Laranja Mecânica com a capa do vinil de 2001), aqui há uma fala de Sellers brincando com o personagem de Mason , dizendo que é SPARTACUS [fita de Kubrick de 1960] (“Sou Spartacus! Eu estou aqui para libertar os escravos?”). A cena se passa em uma mansão bagunçada e vemos um bêbado decadente e um louco decadente lhe apontando uma arma. Ambos foram vencidos por LOLITA. Humbert vai acertar as contas com Quilty e a cena do tiro no retrato da morte é um momento antológico. Outra cena inesquecível é quando Humbert vê Lolita pela primeira vez (o que fez com que ele decidisse alugar um cômodo na casa de Charlotte), a adolescente esta tomando sol no jardim, seminua e nada inocente. Esta imagem, este plano extraordinário, marcou o imaginário de gerações que assistiram ao filme. Só com esta fotografia de Lo, o filme de Kubrick impõe respeito.

Kubrick voltou a explorar o tema da obsessão sexual, de certa maneira, em DE OLHOS BEM FECHADOS (seu canto do cisne), mas 37 anos atrás, ele teve que usar uma linguagem mais profunda, humorada, leve e subliminar, idêntica a própria obra de Nabokov. Assim, para ter essa fórmula, ele convidou o autor, que mais conhece a sua história, para transformar a escrita em imagem.

E o que dizer da fantástica Shelley Winters como Charlotte? Uma atriz estupenda (lembra muito HELEN HUNT, esteticamente falando). Ela tem as melhores falas e é a personagem mais carente, que nega ser mãe daquela menina com nome lírico e melodioso. Uma vítima da conveniência de um casamento com um homem iludido de amor e obcecado por uma garota quente como pimenta e que ao mesmo tempo, é carente de mãe e pai. SUE LYON sumiu do cinema, seu último filme foi uma participação no trash de 1980 – ALLIGATOR, o Jacaré Gigante (clássico das sessões da tarde). Embora tenha feito alguns cults como A NOITE DO IGUANA (1964) e SETE MULHERES (1966) foi LOLITA que marcou sua carreira. O papel principal também foi oferecido para TUESDAY WELD e MARLON BRANDO foi chamado para interpretar o professor.



LOLITA, um nome adorável, um diminutivo poético, segundo Quilty. Em um filme sensual, provocante, escandaloso e que não precisa do óbvio explícito. Basta um plano Kubrikiano, um olhar e um sorriso naquele belo celulóide em preto e branco.
A música “YA YA”, composta por Nelson Riddle (do grupo de rock dos anos 50-60 The Ventures) marcou neste filme e se tornou um clássico hit, também na voz de Sue Lyon na versão “Lolita Ya-Ya”.
Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e venceu o Globo de Ouro, a revelação Sue!

Como eles sempre fazem um filme de Lolita?
Kubrick se foi para responder esta pergunta.


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EUA – 1962
DRAMA/ROMANCE
WIDESCREEN
153 min.
P&B
18 ANOS
WARNER
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
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Thursday, March 8, 2012

WARNER BROS.| YOU MUST REMEMBER THIS





YOU MUST REMEMBER THIS foi lançado diretamente em vídeo, obviamente pela Warner, um documentário que celebra de forma detalhada os 85 anos de vida (1923-2008) do estúdio dos irmãos Warner. Realizado pelo veterano da tradicional revista Time, RICHARD SCHICKEL e narrado por uma das estrelas do estúdio, CLINT EASTWOOD. É um deleite cinéfilo poder conhecer a trajetória de um dos mais tradicionais estúdios de cinema da América, e também, o mais audacioso lugar para filmes que se tornaram polêmicos e cults.


Na verdade Schickel monta uma crônica sobre a Warner, sem precedentes, usa clipes de centenas de produções do estúdio que ilustram lindamente o documentário, como um registro vigoroso para os amantes da sétima arte. Visto que, muitos dos filmes listados, são obras que todo cinéfilo tem predileção e estrelas como BETTE DAVIS, SUPERMAN, BATMAN e HARRY POTTER, fizeram história! Algumas das clássicas fitas (a parte mais interessante do Doc.) datados da década vindoura e longínqua (1920-1930) que serviram de espelho para os valores morais da sociedade americana e atitudes que serviram de estopo para várias gerações. Clint narra de forma suave cada episódio do filme. São eles: “Uma potência em ascensão” (1923-1937), “Guerra e Paz” (1937-1949). “Idade da Ansiedade” (1950-1969), “Começar de Novo” (1970-1990) e “Uma Tradição Viva” (1988-2008). Filmes como: O CANTOR DE JAZZ (1927 – o primeiro filme falado que marcou época e foi na Warner que tudo isso começou), JEZEBEL (1938 – com a diva do estúdio BETTE DAVIS e um sub-capítulo detalhado sobre a relação da estrela com a WB), VITÓRIA AMARGA (1939 – o ano de ouro do cinema norte-americano e tudo o mais), RELÍQUIA MACABRA (1941), o clássico famoso CASABLANCA (1942), VIDAS AMARGAS E JUVENTUDE TRANSVIADA (1955) e um pouco da trajetória do rebelde sem causa JAMES DEAN, ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (1956), QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF? (1966), mais clássicos e a revolução dos anos 60: BONNIE E CLYDE: UMA RAJADA DE BALAS (1967), REBELDIA INDOMÁVEL (1967) o documentário WOODSTOCK – 3 DIAS DE PAZ, AMOR E MÚSICA (1970), O EXORCISTA (1973), UM DIA DE CÃO (1975), TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (1976), SUPERMAN – O FILME (1978), BATMAN (1989), SAGA HARRY POTTER (2001-08), a criação dos desenhos LOONEY TUNES e a Warner dona da DC Comics, etc... Claro, listei algumas das fitas, porém o filme aborda cada uma delas, produzidos pela Warner, além de entreatos de algumas figuras marcantes como o astro JAMES CAGNEY e diretores que passaram por lá como STEVEN SPIELBERG (A COR PÚRPURA [1985], IMPÉRIO DO SOL [1987] e A.I. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL [2001]) e, especialmente a relação da Warner com o irreverente STANLEY KUBRICK (1928-1999) desde LARANJA MECÂNICA (1971) até DE OLHOS BEM FECHADOS (1999). Certamente EASTWOOD não ficou de fora, e fala de si mesmo no documentário dizendo com verdade suas experiências fílmicas na WB.
Os depoimentos são maravilhosos, em especial de artistas como MARTIN SCORSESE que analisa de forma brilhante o seu conhecimento do cinema, como crítico e cineasta, entre outros como; GEORGE CLOONEY, SPIELBERG, WARREN BEATTY, RUDY BEHLMER (crítico de cinema), JOHN CALLEY, LEONARD MALTIN (outro crítico), e sem contar nas exuberantes imagens de arquivos com entrevistas magistrais do mestre ALFRED HITCHCOCK e seus filmes no estúdio. KIM HUNTER, ELIA KASAN, JACK NICHOLSON, RONALD REAGAN, EDWARD G. ROBINSON, RAOUL WALSH e vários demais, também são destaques. Há também imagens de arquivos de um dos irmãos fundadores do estúdio: JACK WARNER (1892-1978), além do súdito Jack Warner JR. (1916-1995). Aliás, o filme abre com uma excelente biografia dos Irmãos Warner: HARRY WARNER (1881-1958), ALBERT WARNER (1884-1967), SAM WARNER (1888-1926) e por fim Jack, o que mais administrou. Conta, de como eles eram descendentes de poloneses judeus, e que trabalharam como vendedores até abrirem um cinema em 1904. Começaram a trabalhar em distribuição, com Sam e Jack também produzindo. E, que em 1923 fundaram a Warner Brothers Incorporated (e o símbolo do escudo da irmandade – WB) com Jack, encarregado da produção artística, Sam como chefe técnico (foi ele o precursor do cinema sonoro), Albert cuidando da distribuição e publicidade e Harry das finanças. Depois de absorverem a VITAGRAPH conseguiram experimentar com o som, culminando com o primeiro filme sonoro (DON JUAN-1926) e depois o primeiro falado (O CANTOR DE JAZZ -1927, com Al Johnson – ambos dirigidos por ALAN CROSLAND). Fala também que em 1929, a Warner absorveu a FIRST NATIONAL estabelecendo o estúdio em Burbank com Jack marcando bem as diretrizes: filmes de gangster, os primeiros da história do cinema com JAMES CAGNEY (o favorito de todos), GEORGE RAFT, EDWARD G. ROBINSON e o galã eterno HUMPHREY BOGART, dramas intimistas (com as estrelas JOAN CRAWFORD, BETTE DAVIS e BARBARA STANWYCK) e musicais luxuosos feitos pelo cineasta lendário BUSBY BERKELEY (alguns até monumentais fracassos). De certa forma o filme ameniza a figura de Jack Warner, que era considerado um tirano, e que administrava o estúdio (que um dia foi também de seus irmãos) como se fosse uma fábrica dos tempos modernos de CHAPLIN. Sem ceder os privilégios dos astros. Continuou à frente do estúdio produzindo pessoalmente algumas fitas (como MY FAIR LADY e CAMELOT) e continuando em atividade mesmo depois da Warner fundir-se com a SEVEN ARTS nos anos 70. Tem até uma autobiografia, que se chama: “MEUS PRIMEIROS ANOS EM HOLLYWOOD”, o que certamente não foi meramente adaptado neste documentário.

De qualquer forma, todo fã de cinema deve procurar o DVD ou BLUE-Disc desta pérola da Warner. Muitas curiosidades e uma verdadeira aula cinematográfica. Sem mais. “You Must Remember This”. Com certeza!


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EUA-2008
DOCUMENTÁRIO
FULLSCREEN
290 min. (EM DOIS DISCOS)
COR
LIVRE
WARNER
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
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Saturday, October 29, 2011

HITCHCOCK EM DOSE DUPLA


Em “Os Pássaros” (The Birds – 1963) uma série de ataques de corvos, gaivotas e de outras espécies aladas começam a acontecer inexplicavelmente numa cidade litorânea depois da chegada de uma misteriosa forasteira.


Em “Lifeboat – Um Barco e Nove Destinos” (Lifeboat, 1944) sobreviventes de um ataque alemão (U-boat) ficam a mercê em um bote salva-vidas depois de naufragarem e um dos sobreviventes entre os nove e o próprio capitão alemão que ordenou o ataque.



Quando falamos em suspense, imediatamente pensamos em ALFRED HITCHCOCK que deixou no mundo do entretenimento inúmeras obras primas da sétima arte. Duas delas são excelentes passatempos e as apresento aqui neste Double Hitch!






OS PÁSSAROS é um filme inigualável e de puro terror quando Hitchcock liberta os seus terríveis bichos voadores das gaiolas, em um dos filmes mais intrigantes e horripilantes do cinema.

Tudo começa quando uma loira chamada Melanie Daniels (TIPPI HEDREN) riquinha, socialite e mimada chega numa cidade litorânea (Bodega Bay) a fim de pregar uma peça em um solteirão bonitão, Mitch Brenner (ROD TAYLOR) que ela conheceu em um pet-shop (Hitchcock faz sua aparição habitual aqui saindo da loja com dois cachorros) na cidade de São Francisco. Logo, ela é atacada por uma gaivota sem saber o motivo, algo incomum e totalmente estranho. Depois, milhares de outras espécies de pássaros aparecem na cidade e começam a bicar as pessoas alimentando-se das vítimas (o que elas adoram comer são os globos oculares), perseguem criancinhas e todos os residentes numa terrível série de ataques. De um jeito estranho, como não é possível combater as criaturas aparentemente inofensivas, Melanie e Mitch lutam por suas vidas neste cerco litoral e pacato.
É incrível como Hitchcock soube lidar com os efeitos especiais e toda a técnica do filme em uma época que não existia computação gráfica e tampouco efeito ótico. E a fita foi mesmo um projeto audacioso já que o público esperava o máximo do diretor. Depois de alcançar o sucesso mundial com Psicose em 1960, Hitch demorou muito para achar outra história e só depois de um tempo que ele viu potencial na clássica estória de DAPHNE DU MAURIER (autora de ‘REBECCA’, primeiro filme de Hitchcock em Hollywood [1940]) para o cinema, depois de ter lido em notícias reais sobre alguns casos de ataques de pássaros a seres humanos.

Primeiramente Hitchcock planejava adaptar o conto de Du Marier para um de seus episódios de sua série de TV ALFRED HITCHCOCK PRESENTS, mas com vestígios de realidade misturados com a fantasia ele foi esperto, e teve tino comercial, em resolver explorar a trama para a tela grande. Aliás, somente Hitchcock para defender a idéia de que todos os seus filmes são puramente fantasia só que passados em um lugar verossímil, o que torna a premissa mais atraente. Quando questionavam Hitch pelo fato dele nunca ter feito um filme de época ou uma fita de faroeste ele sempre dizia: “Não vejo as pessoas irem ao banheiro em um filme de época. Não consigo acreditar nisso.” Ou: “Eu também nunca vi um vaqueiro comprar um chapéu no Velho Oeste.” Portanto fazer com que pássaros saem por aí bicando as pessoas numa cidadezinha litorânea tipicamente americana (grande parte filmada nos estúdios da Universal) é muito mais plausível, cronicamente viável na visão do mestre. O elenco foi muito bem escalado. A ótima JESSICA TANDY (Vencedora do Oscar por “Conduzindo Miss Daisy” [1989] e outros sucessos como “Tomates Verdes Fritos” [1991]) interpreta a mãe do herói com elegância, sofisticação e conservadorismo, só que uma matriarca bem diferente de uma "Sra. Bates". SUZANNE PLESHETTE faz uma professora, apaixonada pelo mocinho e que esta presa nesta cidade pouco atrativa. Fica sempre a impressão de que ela quer roubar o papel da mocinha. A garotinha, irmã de Brenner, é a estreante VERONICA CARTWRIGHT conhecida também pelo seu papel em “Alien: O 8º Passageiro” de Ridley Scott (vide abaixo). Os protagonistas tem uma química bacana. ROD TAYLOR (hoje velinho e conhecido pela ponta no filme de Tarantino “Bastardos Inglórios” como Churchill) faz Mitch com um “Q” de rebeldia e o típico macho tradicional que consegue encantar uma garota fútil e rica da cidade, a nova loira de Hitch, TIPPI HEDREN, que por acaso é a mãe de MELANIE GRIFFITH. Ela substituiu bem Grace Kelly na nova fase do diretor como a loira que desponta na premissa e é sempre o bode expiatório. Seria mesmo um fetiche do mestre? Hedren faz sua estréia no cinema nesta fita (havia estrelado apenas uma série de TV em 1951- “A Família Aldrich” e fazia trabalhos como modelo). Hedren voltou a atuar para Hitch, seu verdadeiro coach dramático, no filme seguinte: MARNIE: CONFISSÕES DE UMA LADRA (1964), filme que infelizmente foi um fracasso comercial (também co-estrelado por Sean Connery). Ela faz essa moça que não tem o que fazer, a não ser correr atrás de homens solteiros e vai parar nessa cidade pequena com aqueles maneirismos da época.

Mas como realizar cenas com passarinhos atacando os atores? Bom, antes de tudo Hitchcock sempre dizia que o diretor, para fazer um grande filme tem que ter três coisas: o roteiro, o roteiro e o roteiro! Assim, ele apenas manteve o título da autora, isto é, “Os Pássaros” e a idéia de que esses animais atacam as pessoas e resolveu começar do zero com o roteirista EVAN HUNTER, que havia escrito algumas histórias de suspense no seriado de Hitchcock para televisão. Feito o texto, Hitchcock precisava resolver o problema físico/técnico da fita. Os pássaros eram na maioria de verdade e treinados para cenas específicas. Algumas gaivotas voavam em direção a câmera quando a equipe lhe jogava comida, os corvos eram mais obedientes e inteligentes (de fato, cientificamente falando, corvos podem ser domesticados como cães e gatos) e faziam as cenas com adestradores presentes no set. Mas, em algumas cenas usavam pássaros falsos. No ataque a mocinha uma gaivota descia em cima de uma viga em direção a atriz e para fazer o sangue, simplesmente um trabalho genial de mão de obra que consistia um aderecista e uma cabeleireira que escondiam um tubo onde saia o sangue falso por um êmbolo escondido na cabeleira loira cheia de laquê de Tippi.

A cena em que as crianças saem correndo da escola fugindo de uma legião de corvos que estavam a espreita no parquinho é um dos momentos mais inesquecíveis e empolgantes da fita. Feito obviamente por um fundo separado em que os bichos voavam numa outra parte da película (só se podia fazer isso com a técnica do Chroma matte painting que consistia em separar os atores dos pássaros alargando os cenários existentes com tinta). Ou seja, eles montavam cada parte filmada da película como num quebra-cabeça para deixar no quadro todas as sequências de ataques, utilizado em 90% do filme. Esse era o efeito especial de antigamente que hoje seria resolvido facilmente por CGI. No estúdio, as crianças corriam em uma passadeira e alguns corvos fantoches eram colocados nelas para os closes e todo o fundo com milhares de pássaros eram neste esquema do Chroma. Um efeito que ainda resiste ao tempo. Na verdade todo o trabalho técnico foi levado por Hitchcock aos estúdios de Walt Disney e supervisionado por Ub Iwerks que atuou como “conselheiro fotográfico.”

A cena em que Tippi fica presa na cabine telefônica e o momento em que os moradores estão em uma lanchonete tentando explicar os ataques, são os meus momentos prediletos.

Hitchcock nunca explica o motivo do fenômeno e aguça a imaginação do espectador com diversas explicações, ora científicas, ora divinas com um bêbado caixeiro viajante exclamando: “É o fim do mundo!”. Adoro quando uma velinha fica lá explicando a existência dos milhares de pássaros que povoam o planeta Terra. Essa senhora feita por ETHEL GRIFFITS com um ótimo pensamento cético e racional, e que sempre terminava dizendo: "Isso é ridículo!" O filme consegue manter o suspense com momentos quase mudos e outros gritantes apresentando um exímio trabalho na arte do som. Aqui Hitchcock não usa trilha musical em todo o filme, e BERNARD HERRMANN não chegou a escrever uma composição sequer para esta obra. Hermann acaba trabalhando como designer de som e consultor sonoro quando ele e Hitchcock viajam para a Alemanha em 1962 e conhecem uma invenção chamada de “Tratonium” criada por Remi Gassman. Basicamente um mecanismo, precursor de muitos dos instrumentos modernos de teclas que captava sons vulgares, comuns que tocado no aparelho, era possível manipular os sons de uma maneira que poderia ter um efeito musical. Ou seja, era música eletrônica com um efeito sonoro inserido.
“Os pássaros” ultrapassa a técnica do filme, sobretudo quando se diz respeito ao olhar único de Hitchcock que usa 371 trucagens em todo a fita e cria 32 pedaços de filmes na polêmica cena final em que mostra uma legião de pássaros na varanda da casa até o horizonte. De fato, hoje um final com um efeito hipnótico e que soube evitar os clichês, já que o final original, além de caro para se fazer na época, revelava de maneira óbvia a destruição e o caos cometido pelas aves: postos de gasolina em chamas, vidros de janelas quebrados, corpos mutilados e pássaros bicando os olhos, sangue, penas para todos os lados, etc. O que torna Hitchcock especial é que ele simplesmente trabalha com a nossa imaginação e sabe como ninguém lidar com a magia do cinema, por exemplo, quando Rod Taylor finge que abre uma porta que não existe pouco antes do final e a luz do dia ilumina a casa. Isso! Esse é o efeito que a platéia não percebe e realmente acredita e que se mostra um detalhe interessante.Ele pode ter se repetido na cena em que Tippi é atacada no sótão. A coitada teve um ataque de nervos ao fazer a cena com pássaros reais, tanto que na cena seguinte em que ela é carregada e colocada no sofá depois de ser atacada, é feita por uma dublê de corpo. Tippi estava exausta! Uma sequência montada de um jeito gore igualmente à cena do chuveiro, um artifício que mostra os limites narrativos do mestre que evita cometer os mesmos erros, mas como já havia dirigido, preferiu manter a cena. Em compensação Hitchcock sabe terminar um filme, afinal não seria ridículo “o carro com os protagonistas escapando de Bodega Bay passando pela ponte Golden Gate à São Francisco e a ponte coberta de pássaros?” Hitchcock uma vez rindo com essa idéia, que inclusive chegou a ser concebida por ele.Pessoalmente, nunca um piar, bater de asas e grasnar teve um efeito tão hipnótico nesta obra de arte do mestre. Só faltou mesmo o ‘twitter’(melro azul) para compor o elenco tuitando e amedrontando os litorâneos.

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EUA -1963
SUSPENSE
WIDESCREEN
120 min.
COR
UNIVERSAL – COLEÇÃO HITCHCOCK
16 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
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Recém chegado na América, Hitchcock vivia momentos difíceis com a Segunda Guerra Mundial. Por isso fez filmes como CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO (1940) e UM BARCO E NOVE DESTINOS, ou melhor, LIFEBOAT (1944). Esta fita foi a realização do mestre a procura de um desafio criativo após realizar diversos melodramas elaborados em sua fase britânica e no filme Rebecca, sua primeira fita americana. Em “Lifeboat” Hitchcock concentrou toda ação, e foi ousado ao fazer um filme inteiramente dentro de um barco com nove atores (o barco tinha várias réplicas no estúdio que era cortado ao meio para colocar a câmera). O projeto foi a sua única experiência nos estúdios da FOX de Zanuck, chefe do estúdio, uma espécie de David O. Selznick que adorava mexer no material artístico interferindo com o trabalho do diretor. Assim, Hitchcock prometeu nunca mais voltar à Fox depois de vários desentendimentos desagradáveis com Zanuck. Enfim, voltando ao que interessa, essa trama extraordinária sobre este bote salva vidas à deriva no Atlântico Norte foi escrita pelo novelista JOHN STEINBECK autor de VINHAS DA IRA (1940) e VIDAS AMARGAS (1955) que Hitchcock fez questão de dividir os créditos em destaque. Steinbeck foi convidado para escrever o script, mas como escrever imagens? Como romancista e não dramaturgo ele recusa-se a elaborar um texto em que personagens falam o tempo inteiro dentro de um bote salva vidas, assim sendo, para dar andamento ao trabalho, o roteirista JO SWERLING foi contratado e elaborou com Hitch todas as sequências que o diretor já havia desenhado. Na verdade Hitchcock já tinha em mente todo o filme e o elaborou com diversos esboços em storyboard.

O filme é uma obra mais cult do diretor e permanece com soberba sobre a dissecação do espírito humano e do estudo de personalidades mostrando como os indivíduos, a despeito de suas opiniões políticas e até de sobrevivência, se comportam quando tem que enfrentar circunstâncias de vida ou morte. Neste barco estão as mais diferentes figuras, uma jornalista internacional, um empresário, um operador de rádio, uma enfermeira, um mordomo, um marinheiro e um engenheiro com tendências comunistas. O problema começa quando eles puxam da água o inimigo de guerra. Um alemão que é o capitão e mandante do ataque (U-Boat), mas eles não sabem quando o resgata somente suspeitam e com o tempo vão descobrindo quem ele realmente é e a platéia fica neste suspense ao longo da fita quando acontecimentos sinistros ficam envoltos deste alemão. Um por um vai morrendo, o que ele quer é sobreviver e não importa o feito humanitário dos oito náufragos de terem permitido a sua presença a bordo.
É uma façanha de Hitch, que joga uma gama variada de pessoas sob grande estresse. Um filme tenso.

O elenco é supimpa. TALLULAH BANKHEAD um talento perdido no tempo, faz a jornalista chique que despreza o herói por quem se apaixona. Tallulah ficou conhecida por fazer isso dentro e fora das filmagens parecia que nenhum ator estava a sua altura. Reza a lenda de um incidente com ela onde, durante as filmagens, diversos membros da equipe de produção notaram que Tallulah não estava usando roupas de baixo. Quando informado da situação, Hitchcock ironizou dizendo que não sabia se este problema era algo para ser resolvido pelo pessoal de figurinos, de maquiagem ou cabeleireiros. Aliás, em matéria de frases feitas, Hitch respondeu com ironia para a jovem estrela da Fox MARY ANDERSON (a única do elenco com contrato no estúdio) que sempre procurava um elogio e perguntou ao diretor: “Qual é o meu melhor lado?” E Hitch respondeu: “Querida você está sentada nele!”


O elenco continua impecável: HUME CRONYN, HENRY HULL, WILLIAM BENDIX e principalmente WALTER SLEZAK como o Alemão que de um jeito cínico, desperta pena até mesmo da platéia. JOHN HODIAK faz o galã que tem o desprazer de beijar Tallulah.



Infelizmente Darryl F. Zanuck deixou o filme de Hitchcock morrer levando em consideração as péssimas e ridículas críticas sem cabimentos (em dias tempestivos de guerra) que diziam que o filme era um panfleto nazista. Além dele interferir na pós -produção, fato que chateou Hitch, ele não fez mais publicidade da fita e este é um filme de Alfred Hitchcock dos mais cultuados e pouco conhecidos. Na verdade ele só tem certa fama devido a carreira famosa do cineasta, senão estaria no limbo há muito tempo.


De qualquer forma LIFEBOAT é uma experiência molhada e satisfatória. Cheia de suspense, com um roteiro esplêndido e uma direção para não botar defeito. Como dizia Hitchcock: “Cinema é uma fotografia com pessoas falando.” Nada como assistir nove pessoas falando em um cubículo flutuante à beira mar.


Curiosidade: a aparição de Hitchcock nesta fita é engraçada. Já que era impossível dele aparecer em um filme que se passa somente em um barco, e como ele não queria se molhar (sugeriram que ele fizesse um corpo barrigudo flutuando) o mestre aparece em um anúncio de jornal que um dos personagens lê na embarcação. O anúncio era uma dieta de emagrecimento mostrando o perfil de Hitch antes e depois. Genial!



Dois celuloides inesquecíveis. Hitchcock é um dos poucos cineastas datados que resiste ao tempo dando sempre aquela aula de cinema.

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EUA – 1944
SUSPENSE/DRAMA
FULLSCREEN
96 min.
P & B
FOX
12 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
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Wednesday, October 19, 2011

STANLEY KUBRICK EM DOSE DUPLA

GLÓRIA FEITA DE SANGUE | DR. FANTÁSTICO



AS TRINCHEIRAS DA MORTE
Quando os soldados em plena I Guerra Mundial se recusam a continuar com um ataque inimigo impossível, seus generais superiores decidem acusá-los de motim e covardia. Mas será mesmo que os pobres e inocentes soldados desertaram? 
É mais uma fita impressionante de KUBRICK, agora nos campos de batalha na França em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial. Depois de dois filmes noir policiais: A MORTE PASSOU POR PERTO ( KILLER´S KISS , 1955) e O GRANDE GOLPE ( THE KILLING, 1956), o famoso diretor de Laranja Mecânica e Barry Lyndon conta esta história problemática e injusta sobre a guerra.
Mais uma real e dramática crítica ao assunto que foi revisitado pelo diretor em DR. FANTÁSTICO (1964) e, em NASCIDO PARA MATAR (1987). Aqui, o lendário ator KIRK DOUGLAS (em impressionante atuação, provavelmente a melhor de toda a sua carreira [é até melhor que SPARTACUS]), interpreta o Coronel DAX um homem que tem que lidar com as futilidades da guerra, sempre apresentadas pelo cineasta de uma maneira irônica, porém aqui, nem um pouco debochada como em Dr. Strangelove  ou em Full Metal Jacket. Na verdade essa trama se passa quase o tempo inteiro nas trincheiras da morte (em uma formidável sequência dentro das trincheiras que começa mostrando pelo ponto de vista subjetivo do personagem) com este coronel (Douglas) que tem que tomar decisões importantes e justas, além de lidar com a posição inimiga custando à vida de vários soldados em uma estratégia militar suicida que propositalmente se destinou ao fracasso (o problema era mais político que patriótico). Os culpados, os verdadeiros vilões eram os generais, superiores de Dax, e a fim de acobertarem o seu erro fatal, eles inventam uma contra-ofensiva a três dos próprios soldados, obviamente inocentes, e o acusam de covardia, motim e outras idiotices e injúrias. 
Praticamente o filme nem mostra um julgamento honesto, assistimos friamente, com toda aquela linguagem Kubrickiana, o assassinato de três homens inocentes, o filme inteiro. Cada acusação era mais dolorosa que vê-los, infelizmente, ao término da obra, fuzilados. Mas ao longo do filme, Douglas, com sua presença heróica faz de tudo para defender os réis, visto que, Dax era advogado na vida civil e usa os seus dotes persuasivos para dialogar contra a promotoria de farda. Mas aos poucos ele vai percebendo as tramóias e acaba sendo vencido por homens mentirosos uniformizados e corruptos para supostamente lutar e defender o seu país.
Um dos grandes momentos da fita de Kubrick
GLÓRIA FEITA DE SANGUE (ou CAMINHOS DA GLÓRIA), o nome em português já traduz muito bem, é um filme estéril. A narrativa é típica de Kubrick, sem atalhos, fria, lindamente fotografada, escrita e com planos de câmeras fantásticos, sobretudo como já havia citado as cenas dentro das trincheiras que lembram muito a sequência do labirinto no gelo em O ILUMINADO, e as cenas grandiosas e ao mesmo tempo estilizadas das batalhas. É a primeira incursão de Kubrick a uma produção maior, polêmica e seriamente dramática, baseada no romance “Paths Of Glory”, de HUMPHREY COBB. É mesmo uma obra prima, que acusa a política militar descaradamente, sem rodeios ou palavras subscritas. Uma odisséia nos campos de guerra.

Há momentos de muita tensão quando os prisioneiros estão implorando pela vida e pouco antes do fuzilamento, é cruel o caminho que eles fazem a glória. Pelas acusações eles foram desertores, mas na verdade, os verdadeiros heróis, manchados de sangue, o próprio sangue, estão nas páginas da história. Acho que a fita não é uma sessão para todos, além do que, ela tem tons noir, o primeiro estilo europeu no gênero guerra, e provavelmente nenhum outro diretor futuramente conseguiu acertar o tom. Kubrick discute o assunto e não está interessado em grandes tomadas aéreas ou milhares de homens se matando uns aos outros ao estilo Lewis Milestone e o seu NADA DE NOVO NO FRONT ( All Quiet on the Western Front, 1930 – Universal Pictures). Ou seja, é o close no olhar do homem. O que mente, acusa, protege e chora. Aliás, em matéria de emoção, o filme traz um dos momentos mais bárbaros em sua cena final, que mostra o grande coração que Kubrick tinha (apesar de sua fama ranzinza) quando sua então esposa CHRISTIANE KUBRICK aqui creditada como SUSANNE CRISTIAN (ainda não eram casados à época – só depois das filmagens), faz uma cantora alemã, e quando canta uma bela canção, deixa todos os homens daquela sala em prantos. Um momento digno antes de voltarem aos campos de batalha. Emocionado e espiando da janela, Dax, um Douglas que se mantêm firme, ordena que lhe dêem mais tempo aos seus homens. E o filme acaba. E Kubrick, para sempre eterno. Uma glória feita em 1957 que não morre jamais!
Christiane Kubrick deixa os soldados em prantos!
Nem se quer foi indicado ao Oscar.

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EUA – 1957
DRAMA/GUERRA
STANDARD
84 min.
P&B
MGM/UNITED ARTISTS
16 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
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BRYNA PRODUCTIONS E UNITED ARTISTS APRESENTAM
UMA PRODUÇÃO HARRIS-KUBRICK CORPORATION
KIRK DOUGLAS EM
PATHS OF GLORY
CO-ESTRELANDO RALPH MEEKER. ADOLPHE MENJOU
COM: GEORGE MACREADY. WAYNE MORRIS. RICHARD ANDERSON
Também Estrelando Joseph Turkel. Jerry Hausner
E Susanne Christian 
Música Original por GERALD FRIED
Fotografado por GEORGE KRAUSE Montagem EVA KROLL
Direção De Arte LUDWIG REIBER Figurinos ILSE DUBOIS
Escrito por
STANLEY KUBRICK. CALDER WILLINGHAM e JIM THOMPSON
BASEADO NO ROMANCE DE HUMPHREY COBB
Produzido por JAMES B. HARRIS Dirigido por STANLEY KUBRICK
© 1957 Harris-Kubrick Production Corp./ UMA PRODUÇÃO BRYNA
Distribuído por UNITED ARTISTS


ALERTA VERMELHO: RISOS
Um general insano inicia um processo destrutivo: o holocausto nuclear em plena Guerra Fria em que uma sala de guerra com políticos (incluindo o Presidente Americano) e generais freneticamente tentam impedir a questão diplomaticamente.
DR. FANTÁSTICO é o filme enfadonho mais legal que já tive o privilégio de assistir. Aliás, em matéria de STANLEY KUBRICK, qualquer filme “chato” tem a audácia de chamar atenção. Baseado no livro RED ALERT (Alerta Vermelho) escrito por PETER GEORGE que colabora no roteiro adaptado de sua obra, o filme é uma sátira, comédia de humor negro sobre a guerra.
E não poderia ser feita no melhor período: a Guerra Fria e toda a paranóia militar e civil americana sobre o uso de bombas nucleares e uma possível Terceira Guerra Mundial que graças a Deus nunca aconteceu (mas se somarmos todas as Guerras, enfim... fiz uma piada infame). Kubrick foi genial ao abordar esta história e a fita é mais um testamento do cineasta sobre a guerra, o seu tema predileto (FEAR AND DESIRE [1953] /GLÓRIA FEITA DE SANGUE [1957] /NASCIDO PARA MATAR [1987]). Aqui, Kubrick não vai as trincheiras ou até as selvas do Vietnã e concentra a ação em uma cúpula (lindo set de KEN ADAM diretor de arte dos filmes de 007), uma espécie de “reunião de guerra” para decidir as coisas de forma diplomática e mesmo o filme, tem poucas cenas de tiroteio militar que acabam sendo estilizados.
Provavelmente a grande atração de Dr. Fantástico é a presença do fantástico PETER SELLERS em três diferentes papéis! O filme começa com este ataque nuclear acidental ("entre aspas") depois que um general louco, o ótimo STERLING HAYDEN de outro filme de Kubrick, o noir “O GRANDE GOLPE” (1956) esta convencido de que os comunas (comunistas assim chamados) estão poluindo os preciosos fluidos corporais de toda a América! Só nesta cena começo a dar risada. E me pergunto? Foi esse o motivo do general ter ordenado um ataque nuclear à União Soviética?
Ai entra em cena o genial Sellers como o Capitão Mandrake que procura desesperadamente uma maneira de suspender o ataque, nem que para isso tenha que ligar de uma cabine telefônica pública a cobrar para o Presidente ( ou seja, para ele mesmo – muitos risos nesta cena). Paralelamente o Presidente Americano (o Sellers menos engraçado) pega o telefone de emergência e tenta convencer um bêbado soviético (mais risos) que impedir o ataque seria um erro, mas na sala de reunião está presente um conselheiro pessoal do presidente, que por acaso é um “ex-nazista cientista”, o Dr. Strangelove (Sellers excelente aqui) que confirma com todas as letras em um sotaque alemão típico, a existência da tão falaciosa “Máquina do Juízo Final” (muito comentada na época da Guerra Fria) que seria uma arma final, um dispositivo secreto feitos pelos soviéticos que retaliaria toda a raça humana, garantindo assim o seu extermínio. 

O filme ainda conta com a atuação exímia de GEORGE C. SCOTT (de Patton, Rebelde ou Herói? [1970]) no papel do general “Buck” que é um sujeito tipicamente americano e que dorme com a secretária que por sua vez faz atendimento telefônico seminua em sua cama de hotel tomando um bronzeado artificial. Scott tem ótimos momentos super engraçados nesta cúpula provando para o presidente ao contrário de tudo que possa vir dos soviéticos (um homem que sofre de Xenofobia), ainda mais quando um deles esta nesta reunião comendo salsicha e fumando charuto, o excelente PETER BULL como o embaixador russo Sadesky. Na verdade o filme é realmente um picadeiro onde a comédia é soberana. Ela não é típica, são piadas sutis e inteligentes com linguagem de guerra e personagens caricatos.
Peter Sellers nos melhores papéis de sua vida. Kubrick soube explorar bem o ator
Quanto a Sellers? Bom, eu particularmente gosto mais dele fazendo o Dr. Fantástico que um dia já foi nazista, mas que não deixa de ser Alemão que tem aqueles tiques saudosos “Heil Hitler” e fica numa cadeira de rodas dizendo absurdos. Muitos deles sem sentido! A fita é um verdadeiro clube do bolinha (só a personagem da secretária – única mulher que aparece) e é sem dúvida o trabalho mais pessoal de Kubrick. Uma verdadeira jornada ao próprio umbigo, um filme que o cineasta fez para si mesmo. Assim sendo, provavelmente, Dr. Fantástico seja o seu filme na qual o público, genericamente falando, tenha visto com pouca frequência. Eu mesmo só o vi duas vezes na minha vida. Acho que basta assistir a cada dois anos, dependendo do humor, visto que, é uma comédia extremamente datada, estilizada e temática.
O filme começa chato e vai melhorando aos poucos. Aqui reconhecemos os primeiros toques Kubrickiano: os típicos “Zooms”, posicionamento de câmera e a narrativa em si, inspirada no romance do ex-tenente da Força Aérea Inglesa, PETER GEORGE que publicou o seu livro “Red Alert” em 1958 com o pseudônimo de “Peter Bryant” – tempos difíceis. O curioso é o livro ter tido pouca reverberação entre os americanos, mas ter tido grande impressão nos dois maiores estrategistas de guerras nucleares britânicos, Thomas C. Schelling e Herman Kahn. Isso prova como a natureza da história serve apenas para os militares. Tudo é dito em códigos que civis nunca teriam acesso, e o filme inegavelmente, carrega a mesma cruz. 
Kubrick era um indivíduo intelectual e interessado na guerra. Portanto para ele o livro “Alerta vermelho”, assim como para os estrategistas militares, era um material de grande valia e viu-se então uma oportunidade de caçoar disso na sétima arte. Eu nunca li o livro, mas acho que ele, sendo uma obra estratégica de guerrilha, creio que não teria graça alguma. Certamente o roteiro é extremamente diferente do livro fazendo a leitura cômica mudando o tom e até mesmo o título para: DR. FANTÁSTICO Ou “Como Aprendi a parar de me preocupar e Amar a Bomba!” – subtítulo extremamente sarrista.
Enquanto Kubrick rodava LOLITA, o diretor já concebeu o seu próximo filme. Então, Dr. Fantástico também seria o projeto que confirmaria o fato de Kubrick ter se radicado na Inglaterra para sempre. Stanley conheceu o livro de George quando fez uma visita ao Instituto para Estudos Estratégicos de Londres. Lá o diretor do instituto, Allistair Buchan, mencionou o manuscrito para Kubrick.
Cena antológica!
Para reforçar a idéia apreensiva com a possibilidade de uma guerra nuclear começar por acidente ou loucura, Kubrick chamou o lendário cenógrafo KEN ADAM para trabalhar na elaboração dos sets. É mesmo um trabalho de tirar o fôlego, a cúpula de reuniões, a sala do general, os mapas estrategistas, tudo é sem dúvida um trabalho de mestre. Tudo isso remete as primeiras fitas de James Bond na qual Adam foi diretor de arte e Kubrick só o contratou (futuramente faria com ele BARRY LYNDON) depois de ter assistido e adorado 007 Contra o Satânico Dr. NO.

Esta obra me deixa estupefato. Nunca consegui amar um filme sequer do Alain Resnais (não é piada minha), mas Kubrick transforma um romance sério de suspense com tudo para ser chato em uma comédia-pesadelo fantástica com um ator tão maravilhoso como foi Peter Sellers, que é capaz de nos fazer rir com um peido.
Pickens e o seu rosto familiar


A famosa cena em que o piloto, o major “King” – feito pelo veterano astro de Western SLIM PICKENS tenta soltar a bomba nuclear montado em cima como um caubói em seu cavalo, e quando consegue o feito fica em cima dela gritando histericamente, tornou-se antológica. Assim como a sequência final ao som de “Vamos nos encontrar novamente”. Um filme que transcende a linha do tempo. E Um alerta engraçado.



Ironicamente, o filme foi apenas indicado a quatro Oscar: Filme, Direção, Ator (Sellers) e Roteiro Adaptado. Uma piada de mau gosto!
O grande set de Ken Adam
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 INGLATERRA – 1964
COMÉDIA/GUERRA
FULLSCREEN
94 min.
P&B
COLUMBIA/SONY
14 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
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COLUMBIA PICTURES APRESENTA
UMA PRODUÇÃO DE 
STANLEY KUBRICK
PETER SELLERS. GEORGE C. SCOTT EM
DR. STRANGELOVE
OR: HOW I LEARNED TO STOP WORRYING AND LOVE THE BOMB

TAMBÉM ESTRELANDO: STERLING HAYDEN. Co-estrelando: KEENAN WYNN
SLIM PICKENS. PETER BULL. JAMES EARL JONES
E TRACY REED COMO “MISS FOREIGN AFFAIRS” - A secretária
ROTEIRO DE: 
STANLEY KUBRICK. PETER GEORGE e TERRY SOUTHERN
BASEADO NO LIVRO “RED ALERT” DE PETER GEORGE
Música Original LAURIE JOHNSON Fotografia de GILBERT TAYLOR
Montagem ANTHONY HARVEY Diretor de Arte KEN ADAM
Cenografia adicional PETER MURTON
Efeitos Especiais WALLY VEEVERS Produção Associada VICTOR LYNDON
    Produzido e Dirigido por   
STANLEY KUBRICK
© 1964 HAMK FILMS LTD. COLUMBIA PICTURES