Festa de Natal, pessoas ganham perfumes e a pauta surge natural.
Os que antes evitavam cuidadosamente comentar o estranho hábito desta parente ou amiga agora se permitem ao assunto, na frente, sem receio do estranhável.
No início, a esdrúxula, e não remunerada atividade, de escrever sobre perfumes, num blog, era solenemente ignorada no círculo da amizade ou família - com algumas exceções, contadas nos dedos de uma das mãos.
- Valha-me Deus, de onde ela tirou esta idéia? Vai lucrar o que com isto? Quem é que vai perder tempo lendo sobre perfumes?
- Deve ser crise de meia idade! Que se ocupe com coisa melhor, para ganhar algum dinheiro.
- Será que ela está com depressão?
- Ah... ela gosta, se distrai... sempre teve jeito com estas coisas... deixem que faça o que gosta.
- Perfumes? Fica horas escrevendo sobre perfumes? Mas ela não foi professora de Biologia a vida toda ? E o laboratório?
Após 500 resenhas e aproximadamente 300.000 páginas acessadas, céticos e constrangidos se tornaram condescendentes, e as palavras antes lidas por estranhos encontraram um tímido lugar a mesa.
Entretanto, como dizia minha avó...
- Esta menina é do contra...
E, uma vez que o mister no blog está caindo no lugar comum da aceitação, o pequeno "demônio do contra" emerge e me questiono:
- O que faço aqui? Critico perfumes? Vendo perfumes? Ou simplesmente ocupo meu espírito com coisas belas para esquecer a feiúra do mundo?
Um amigo perguntou-me admirado.
- Você vende todos estes perfumes que estão no blog?
E fiquei pensando...
- Será que possuindo os 500 frascos eu venderia?
Provavelmente não!
Em uma década ou duas me transformaria numa excêntrica colecionadora, como Madame Claudine Pillaud de Menton, citada por Turin.
E moradores antigos diriam aos visitantes da minha cidade, respondendo à curiosos procurando perfumes antigos:
- Ah, ça c'est madame Casagrandé qui s'en occupe.*
Crítica quiçá? Avaliadora?
Não... me falta a arrogância inata, o espírito ferino que não demonstra misericórdia.
Sou incapaz de diminuir o trabalho do outro, principalmente desvalorizando aquilo que ainda não faço ( pois um dia farei meu cheirinho, algo prá chamar de meu).
Penso que a atividade humana merece crédito por si só, antes de avaliarmos o resultado de tal feito.
Não chegando ao exagero solicitado pelos meus alunos:
- Profe! Dá um pontinho pelo exercício. Só pelo trabalho de ter feito ...
Neste mundo de preguiça e imitação, perfumista que veste a camisa para produzir matéria merece atenção, e alguma delicadeza, antes que se pense em avaliar a arte produzida.
Percebi, há tempos que sou branda demais para ser crítica e cabe aos meus leitores exercitarem a perspicácia separando o relato que é fruto apaixonado do meramente polido e descritivo.
Independente, auto-suficiente e orgulhosa!
Fui treinada desde a tenra infância para ser exatamente assim. Uma mulher batalhadora numa sociedade machista. Que não se verga... Coisas de família.
Desta maneira, não seria do meu feitio trilhar o estilo Luca Turin, de franqueza contundente, que neste círculo fechado de "perfumólatras" arrebanhou um séquito de "seguidores-imitadores-críticos-acres".
Turin é singular, pois consegue beirar a crueldade sem perder o savoir-faire... um estudioso culto, trabalhador brilhante da pesquisa e ciência.
Perda de tempo tentar a imagem e semelhança, pois tal aprendiz geralmente recairia na avaliação banal e agressiva.
Adoço a bebida amarga, relato odores como se fossem cores e sons.
Concilio palavras, não firo o trabalho de quem não tem habilidade genial, procurando ser amável senhorinha, embora pise em ovos para não causar danos às sensibilidades.
Logo não sou crítica de perfumaria.
Não recebo soldo (que espanto!) e a comissão das poucas vendas efetuadas nas lojas de afiliação mal cobre o custo de energia elétrica, que mantém o computador ligado.
Das amostras que tenho raras gentilmente recebi, ínfima parte constitui o que experimento pelas lojas, anônima cliente, sem revelar meu propósito, sendo a maioria obtida praticando escambo, com outros iguais a mim.
Logo não devo fidelidades. Não tenho patrão.
Escrevo o que quero e quando quero.
Suponho não ser vendedora ou publicitária.
Como definir-me nisto? No convencional serei rotulada de crítica em perfumaria.
Na prática ...uma descritora de perfumes!
Relatora de quimeras, como alguns gentis que escrevem contos de fadas para crianças (e adultos).
Escrevo sobre os que me ganham a alma, o coração e a pele e acerca dos que ganham a razão, na humildade de reconhecer que, se não me conquistaram, esse nariz que voz fala não constitui verdade absoluta, e hão de agradar à outrem.
Apenas escritos...
E, não conseguindo abandonar o hábito (de professora), arrisco estrelinhas... ou sapatinhos, parafraseando o ícone da divertida personagem global...
- Só no sapatinho eu vou...
VÍDEO: Só no Sapatinho...!!!
Imagens: Praga/de N. Casagrande; Idea de Elisabeth C;Vintage bottle- crystal Baccarat/ Grossmith Perfums; Bodhisattvas; afresco romano de figura feminina; afresco romano de estilo feminino.
* Citação de O Imperador do Olfato de Chandler Burr
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