Boas "estórias" são adoráveis e grandes perfumarias pródigas nestes cativantes relatos e conceitos que fundamentam suas criações.Se voltarmos o olhar para Vigny, que nasceu em 1918, veremos uma perfumaria criativa cujo nome homenageou o poeta françês Albert de Vigny.
Associada com Dana e Molineux, idealizada por Lucien Vogel e seu irmão Jacques iniciou no 416,rue Saint Honore, Paris.
Perfumaria inovadora, seus perfumes eram originais na apresentação e nos conceitos polêmicos.
Ativos no mercado, o apogeu nos anos 20 levou as fragrâncias à Paris International Exposition of Modern Decorative and Industrial Arts exibindo frascos decorados com borboletas e pássaros.As originais garrafinhas, hoje procuradas pelos colecionadores, eram fabricadas em cristal Baccarat ou Lalique, apresentadas em lindas publicidades idealizadas por Charles Martin.
HEURE INTIME
Heure Intime, lançado em 1933/1934, fez sucesso no Brasil, seduzindo mulheres de vários grupos sociais.Algum tempo atrás um colega da área de saúde, alguns anos mais velho, comentou ter sentido recentemente a fragrância de um perfume que na década de 70 era comumente usado pelas prostitutas de luxo.
Tentei inutilmente descobrir qual seria e até arrisquei, me perdoem se firo sensibilidades, Chanel nº 5, considerado um dos perfumes mais sensuais da perfumaria, campeão de vendas. Sugeri Musck de Coty, Tabu by Dana...Não eram.
Depois de inúmeras tentativas para descobrir qual seria desisti temporariamente até relembrar uma história da infância, época em que a arte de escutar escondido as conversas dos mais velhos era uma atividade rotineira para uma pequenina curiosa.
Lembro-me das reuniões de primas, sábado a tarde, jovens senhoras em volta da bandeja de café, aos cochichos e risadas quando falavam de um misterioso perfume.
O que pude perceber era que todas tinham imensa curiosidade e tencionavam comprar ou conhecer.
Semanas após, ou meses - naquela época importados eram raridade por aqui - apareceu em casa uma pequena caixa transparente, dentro de uma embalagem em veludo vermelho, cordão de seda torcido.
A caixinha continha um minúsculo vidrinho de líquido ambar com um maravilhoso aroma de flores.
Era o cobiçado perfume.Anos mais tarde, perguntei à minha mãe qual era o mistério que envolvia Heure Intime.
Confidenciou-me que fora um modismo, uma "coqueluche" desejada pelas mulheres pois o tal perfume ganhara fama de afrodisíaco que enlouquecia a imaginação e libido masculina.
Todas o queriam, ingenuamente crédulas nos poderes fantásticos; porém morando numa cidade extremamente conservadora e provinciana relutavam em procurar abertamente, pois era a"marca das cortesãs" modernas.
Imagino que o mercado negro da época ( contrabando via Porto de Paranaguá ) fervilhava com encomendas do pequeno frasquinho.
Sumiu, sufocado pelas novidades, pela fartura de ofertas, pelo desvendar de véus...Descontinuado permanece na memória de muitos revivando lembranças através do perfume Hora Íntima, comercializado pela empresa paranaense Julie Burk, desde 1986.
Ambos florais, aldeídicos e elegantes, apresentam semelhanças através da avaliação baseada em recordação olfativa diluída por décadas.
Na percepção de mulher adulta, reconstituindo fragmentos da memória infantil, Heure Íntime me parece um bouquet de flores doces, elegante, sofisticado, chic!
Hora Íntima, o nacional, exala uma fragrância com as mesmas características, intenso e com ótima fixação, provocando a sensação de deja vu, de conhecimento remoto.Penso que é provável termos encontrado uma edição aromática ao estilo de Heure Íntime de Vigny.
LE GOLLIWOGG
Contudo, Vigny tem mais para contar.Outra fragrância famosa, que nunca vi nas lojas nacionais, é Le Golliwogg introduzido nos Estados Unidos em 1925.
O termo golliwogg tem muitas conotações e envolve nebulosamente o preconceito racial contra a população negra das Américas ou Europa.
É usado para designar artefatos bélicos, cigarros, grupo de rock americano, dança folclórica, biscoito de chocolate australiano, raça de touros e perfume.
Inclusive se tornou símbolo de Agbetha Fälskog( Abba).
O frasco de Le Golliwogg by Vigny é encimado por tampa que simula um bonequinho afro com farta cabeleira, semelhante as figuras "blackface" dos shows musicais Minstrelsy e ao personagem das histórias infantis de Florence Kate Upton.
Golliwogg era um gnomo preto que vivia suas aventuras ao lado de duas bonequinhas holandesas.Criado para ser mau, abrandou esta característica com a crescente popularidade alcançada.
Explorado de várias formas, era sucesso garantido estampando produtos como brinquedos, serviços de porcelana, papelaria e acessórios.
O vocábulo se tornou pejorativo na Inglaterra, usado para designar pessoas de outros grupos étnicos( asiáticos e africanos), atualmente suscitando controvérsias em incidentes envolvendo personalidades famosas - Naomi Campbell - e grifes de vestuário.Nos anos 20, o perfume Le Golliwogg foi um tributo à Josephine Baker ( A Pérola Negra) lendária dançarina e cantora de jazz, apontada como exemplo de africanismo.

A caixa que embalava os frascos de Le Golliwogg e Heure Intime foi desenhada pelos artistas gráficos Michel de Brunhoff e seu cunhado Lucien Vogel, editores da revista Vogue, desenvolvida sobre a temática de dancarinos negros de jazz.
Estes desenhistas ilustraram The Story of Barbar cujo personagem, elefante Barbar até hoje conquista crianças pelo mundo.Vigny entrelaçava suas fragrâncias com várias expressões da arte.
LE CHICK CHICK
Foi considerado o mais original dos frascos de Vigny.
GUILI GUILI
Inspirado na vida real de um mágido de Alexandria - Egito equilibrava o frasco sobre base de mogno na função de pé, enquanto a tampa, também em madeira representava uma máscara africana.Perfumes Vigny
- Musky, 1919
- L'Infidel,1919
- Ambre, 1919
- Jamerose, 1919
- Le Golliwogg, 1919
- Douce Chose,1921
- Fleur celeste, 1922
- Palin Soleil,1922
- Eloa,1922
- F'ou Veint-il?, 1922
- Le Narcisse de France, 1923
- Lionette,1924
- Be Lucky,1925
- le Chick-Chick,1925
- Le Bouquet de Vigny, 1927
- Guili Guili, 1934
- Heure Intime, 1934
- Beau Catcher, 1942
- Echo Troubant, 1951
- Chambord,1952

Fotos: Frascos e publicidades obtidos em Wikipedia, ebay, Bath Antiques Online, Aunt Judy's Atic e Duftwasserchen.
VÍDEO I :Josephine Baker's Banana Dance
VÍDEO II: Josèphine Baker - La Petit Tonkinoise - 1953
VEJA JOSEPHINE BACKER -OLYMPIA M 1968 - HELLO DOLLY
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