Saturday, October 10, 2009

A surpresa

A surpresa
Marcos Lacerda dos Santos
10/10/2009

Era a primeira vez que estava dirigindo para a minha mãe, dona Eliza, nunca me deixou dirigir, era muito rígida a esse assunto de carros, mas me prometeu que quando eu fizesse dezoito anos me ensinaria a dirigir. Agora eu já sei, e tirando as aulas de direção que dona Eliza me dava, era a primeira vez que estava dirigindo para ela. O destino ela só me disse quando entramos no carro, um Gol simples, duas portas, cor vermelha, já tínhamos ele há alguns anos, não sei ao certo. Íamos visitar um velho amigo de minha mãe, Baltazar, como era muito intimo da família, desde criança eu o chamo de Tio Baltazar. Tio Baltazar era mais do que só um amigo ou tio para mim, ele compensava o que meu pai não fazia por mim, ele era o pai que eu queria que fosse.
Lembro-me do dia em que fui andar a cavalo pela primeira vez, eu tinha 15 anos e tio Baltazar me pôs em sua égua Princesa, sempre achei esse nome muito clichê para éguas, mas nunca falei isso ao meu tio, quando ele me disse para triscar de leve com o chicote na égua, ela disparou enlouquecida e em poucos metros eu fui ao chão, minha mãe com toda sua preocupação de mãe de um único filho ficou desesperada, mandou que meu tio me colocasse no carro e me levasse a um hospital, mas como a fazenda de tio Baltazar era muito longe da cidade tive que ficar por ali mesmo. O acidente nem foi assim tão grave, só alguns cortes a arranhões, mas tio Baltazar me prometeu que ia compensar a queda e disse que queria me levar a um parque de diversões, eu não estava zangado com meu tio, mas meio envergonhado eu lhe disse:
- Na verdade eu queria que o senhor me levasse a um outro lugar.
- Pois diga meu filho, qualquer coisa para que não fique magoado comigo.
- Eu queria ir a um bar com senhor, feito dois homens feitos.
Eu pedi isso ao meu tio Baltazar por que meus amigos da época sempre falavam que os pais os levavam a bares e falavam coisas que homens falam. E tio Baltazar me levou ao bar, e esse dia foi um dos mais felizes da minha vida, até a parte que cheguei em casa bêbado e minha mãe nos deu uma bronca, mas a pior bronca foi a do meu pai, seu Valentino, ele nunca gostou de tio Baltazar, talvez tivesse ciúmes da grande amizade que ele tinha com minha mãe, e naquele dia meu pai me bateu como nunca tinha feito antes, e antes que tio Baltazar pudesse me defender, minha mãe o tirou de casa.
Já estávamos chegando à velha fazenda de tio Baltazar e depois de muito silencio, talvez por causa da separação da minha mãe com meu pai, ela resolve falar:
- Hoje você terá uma surpresa meu filho, uma surpresa boa, espero que sirva como um presente de aniversário.
- Mãe, a senhora sabe que eu não gosto de surpresas.
- Espere e verá.
Quando chegamos na casa da fazenda estava muito silencioso, pensei que tio Baltazar talvez estivesse na horta, ou tocando as vacas, como ele nunca se casou e nunca teve filhos tinha que cuidar de tudo sozinho naquela fazenda. Fui da uma volta antes de entrar na casa, mas minha mãe foi já estava entrando, e antes que eu pudesse me distanciar muito ouço um grito, o grito de minha mãe. Saio correndo para ver o que é e ao entrar na casa minha mãe me abraça enquanto chorava, e enquanto eu me chocava com o corpo de tio Baltazar ensangüentado no tarpete e com um tiro no peito.
A sala de tio Baltazar era logo a frente da cozinha e na cozinha tinha uma janela de vidro, e nessa janela vejo um vulto de um homem, largo minha mãe em lagrimas e vou correndo tentar achar a esse homem. Logo que cruzo a parte de traz da casa de tio Baltazar, encontro meu pai apontando uma arma para mim. Em lagrimas pergunto:
- Por quê? Por que você fez ...
E antes que eu terminasse de falar, Valentino, esse que eu tinha como pai, diz:
- Você não é meu filho! Você achou que sua mãe terminou comigo porque eu não a ajudava em casa, não era verdade, ela me contou tudo, me contou que dormiu com Baltazar uma semana antes de nos conhecermos.
- Você está me dizendo que tio Baltazar...?
- É verdade meu filho, numa festa da faculdade, eu e Baltazar bebemos muito e acabamos dormindo juntos. E uma semana depois eu conheci Valentino, na mesma noite eu dormi com ele também, mas nunca contei a ninguém, nem a Baltazar que você era filho dele, contei ao seu pai...
- eu não sou pai de ninguém
-...ao seu pai porque achei que agora poderíamos ser uma família de verdade, uma família feliz.
- E por causa dessa mentira você destruiu a minha vida, eu só casei com você porque me disse que estava grávida. Eu tinha planos para o futuro, eu tinha sonhos. Mas graças a você vivíamos naquela merda de vida – começa a chorar – Eu estava com ódio de vocês, eu estava com ódio de Baltazar...
Pronto para partir para cima de Valentino eu gritei:
- MAS O QUE TE DAVA O DIREITO DE MATAR O ÚNICO HOMEM QUE SE IMPORTAVA COMIGO, EU NÃO PRECISAVA SABER QUE ELE ERA MEU PAI PARA CONSIDERÁ-LO, ELE SEMPRE FOI O MEU PAI, NO MEU CORAÇÃO
Minha mãe sussurrando em lagrimas disse:
-Me desculpe filho, eu nunca quis que fosse desse jeito.
Valentino já seco por dentro murmurou:
- Mas teve que ser assim, nada mais nessa vida me faz sentido.
E coloca a arma em sua boca e a dispara.
Minha mãe me abraça sem forças de tanto chorar, e eu digo em seus ouvidos que a culpa não era sua, e que a perdoava.
Essa foi a minha surpresa, nunca gostei de surpresas, de verdade, e acho que nunca vou gostar. E esse fardo terei que levar comigo para o resto da minha vida, pelo menos agora eu sei que o homem que sempre cuidou de mim, o homem que me levou para beber como os pais dos meus amigos faziam, era realmente meu pai.

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