Padrões de formas e cores representam o que palavras não exprimem.
Sedução!
Geralmente vem codificada em tons quentes, formas sinuosas e arredondadas.
A mensagem é clara.
Entretanto, Dioressence é sedução em verde! Contesta o óbvio.
O espírito deste perfume é cálido, voluptuoso, desprovido de arestas e, contrariando o curso natural da simbologia, o líquido encerrado nas linhas simples, elegantemente despojadas do frasco, semelhante ao de Dioríssimo, é verde!
Apesar de ser considerado animalic... este conceito da perfumaria que desperta minha atenção e apreensão, muitas vezes revelando aromas estranhos, desagradáveis, conceituais, que não se prestam ao objetivo maior : perfumar.
Aromas sobre os quais podemos ler, incomuns, porém que não servem para usar com prazer, exceto aos que tem predileções olfativas estranháveis.
O homem é um ser social, vaidoso e com expectativas de aceitação no grupo. Seu cheiro precisa atender esta pretensão. Conquistar com naturalidade, não repelir.
Dioressence engloba a proposta animalic de forma delicada e sensual, extremamente desejável e bem aceita.
Se a cor que o representa é quase fria, a evolução macia e cremosa tem calor e apelo carnal.
Apesar de ser a versão modificada, massacrada pela crítica, e não a enaltecida vintage ( 1969), cujo animalic agressivo e barbare foi exaltado por Turin, exibe inúmeras qualidades.
Agradou-me.
Não consigo ver erro na delicadeza sutil do sugerido e não rudemente explícito. Atrai-me a idéia deste velado que incita a imaginação, permite a exploração dos desejos sem a crueza pronta do aroma agressivo ao que não se pode acescentar nada, só aceitar.
Oportunamente não conheço o outro, de forma que posso apreciar este sem idéias pré-concebidas.
Ínicio herbal, típico dos chypres tradicionais, fugaz, cede espaço para notas envolventes, acariciantes e doces, onde flores submergem em ondas de canela, cravo e pulsante almíscar.
Sinto uma equilibrada combinação de benjoin e mel, balanceada pela adição de vetiver e seu aromático resinoso, musgo discreto e profundo, num acorde a lembrar pungência da civeta..
Aromático acento rodeando o bouquet, equilibrando seu intenso dulçor e conferindo um toque acre e incensado, que frequentemente recua ante as picantes especiarias.
Aveludado próximo ao leitoso Dioressence escorrega macio sobre a pele como uma pedra opalescente e polida, aquecida pelo sol.
Se fosse um mineral seria opalina cuja suavidade prende o olhar, soaria como o murmúrio de promessas, em forma sinuosa simulando as dunas do deserto ... a cor? provavelmente um caloroso tom dourado, mas alguém com poder decisório o sentiu mais perto do verde de folhas e cítricos.
Consumatum est... verde é uma bela expressão de luz e recebendo as camadas do denso âmbar resplandece em sedução.
Pertencendo à uma linha olfatória muito interessante lembra outros mais intensos e contundentes, que expressam sua intenção em acordes intensamente obscuros e turvos.
Partilha este traço comum com perfumes como Kingdom, Nu, Youth Dew entre inúmeros outros considerados especiados e animalic.
Entretanto sinto em Dioressence um produto refinado, civilizado, que se afasta um pouco da força deste conceito, como se o acorde animalic tivesse trocado um couro suarento por outro genuíno e característico, porém limpo e escovado.
Família Olfativa: Chypre floral, 1979 ( 1969)
Perfumista: Guy Robert
Gênero: Unissex
Pirâmide Olfativa:
- Topo - Aldeídos, notas verdes, laranja, bergamota
- Coração - Cravo, gerânio, rosa, canela.
- Base - Benjoin, patchuli, musgo de carvalho, baunilha.
Proeminente nez da perfumaria mundial , exerce sua função há mais de 54 anos.Desenvolveu várias fragrâncias de renome como Madame Rochas - 1960, Caleche - 1961, Monsieur Rochas -1969, Equipage - 1970, Gucci Nº 1 - 1972, Mary Quant Havoc - 1974, Amouage Amouage - 1983, La Prairie One Perfect Rose - 1990, Pink Room Parfum Nº1 - 1999 entre outras.
Particularmente dedicado, sobrinho do perfumista Henri Robert, contribuiu com a orientação de inúmeros perfumistas do cenário atual, ensinando os segredos da profissão, criando teorias que também estão descritas no livro da sua autoria - Le Sens du Parfum.
Foi presidente da Societé Francaise des Parfumeurs.
Fotos : Gui Robert de Mimifrou; Seductive de art e form, Editorial de moda Paris em Foco



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