Friday, July 10, 2009

RUMBA by Balenciaga

Algumas coisas são tradicionais, outras arcaicas.
O bar Stuart sobreviveu na minha cidade desde 1904 tornando-se ponto turístico, servindo as mesmas iguarias entre as quais seu prato mais famoso: Testículo de boi.
Isto era impressionante para a menininha que passava na frente e espichava olhos interessados para ver os tais petiscos.
Porém o curioso, que permaneceu por décadas, foi a machista tradição de não permitir a entrada das mulheres.
Nada mais estimulante para um espírito contraditório com leve tendência à rebeldia.
Adquiri um hábito na década de 80: Frequentar cafés da boca maldita, também redutos masculinos, quando mulheres não se atreviam a parar as atividades de trabalho ou compras para saborear publicamente a bebida sedutora e aromática.
Puro egoísmo machista! E logo com o café...Adoro café!

Decidida, lá pelo meio da tarde entrava num "cafezinho" e, com cara de quem não sabia de nada, pedia um café preto.
Enfrentei olhares enviesados e surpresos mas sobrevivi incólume.
Cerrei fileiras com outras inconformadas e acostumei com os "cafezinhos" pelo centro, hábito hoje dividido com muitas mulheres, embora ainda sejamos minoria.
Figurativa queima de soutiens porque nunca fui feminista radical, nem contra o sexo oposto.
Deve ser difícil para a geração jovem imaginar que há poucas décadas não era de "bom tom" senhoras desacompanhadas se instalarem nas banquetas dos cafezinhos da Quinze.
Pelo menos não em Curitiba.
Alguns anos antes do final do milênio, resolvi que seria a vez do bar Stuart.
Empinei o nariz e aproximei-me da porta. Que decepção, havia não uma, mas três mulheres lá dentro!
Nada de pioneirismo, dei meia volta. Até hoje não sei como a tradição foi por terra e nem vi os tais testículos de boi. Mas não importa, pois parece que o bar mudou de dono.
Foi-se a tradição e o costume arcaico também.
O que isto tem a ver com Rumba ? Tudo e nada.
Para enfrentar o frio e a chuva de interminável cinza na cidade serrana coloquei várias gotas de Rumba e saí sufocando a população.
Sim, pois Rumba é denso. Há de se ter moderação para ser apreciado e é fácil transgredir.
Também transporta para uma época de transições da provinciana cidade do Sul, cujos costumes enraizados são preservados com gana.

Gloriosos anos 80 de perfumes intensos, das festas enfumaçadas nas discotecas, quando cuba libre e pipermint eram bebidas da moda, dançava-se ao som dos Bee Gees, garotos ainda andavam na ginga de John Travolta (Saturday Night Fever), e era possível transitar pelas ruas, de madrugada, com risco mínimo.
Perfumes como Opium, Samsara, Loulou, Café e o fascinante Mystere faziam sucesso entre as jovens mulheres; Rumba cai feito uma luva dentro desta safra.
Aromas orientais, intensamente especiados e enfumaçados, florais mais que exuberantes fizeram desta década a geração over da perfumaria.
Hoje estão no imaginário das pessoas mais jovens como"datados" e das maduras como saudosismo.
Rumba cai feito uma luva dentro desta safra, pois detém todos os ingredientes clássicos.
Inspirado na caliente batida latina, na verdade dança ao ritmo daquela década e na cadência das mudanças comportamentais, desencadeadas pelos movimentos que marcaram uma geração, agora amadurecida.
Libertação de embolorados conceitos, lufadas de renovação.
E assim explode Rumba numa empolgação frutal de pêssego e variedades de ameixas. Alegre intensamente doce e quase inocente.
Antes do acento cintilante de frutas e flores existe um prenúncio do couro e especiarias da base, em animalic caloroso, exótico, surpeendente pela precipitação e ousadia das notas.
As flores mesclam-se de forma intoxicante pela presença das personalíssimas tuberosa (angélica dos jardins) e magnólia, num ramalhete impreciso.
Não tarda o drydow.
Doses generosas de musgo, patchouli, baunilha e couro transformam a candura entusiasmada do início num aroma denso, apimentado, com enevoado e seco incenso.
Madeiras e resinas amparam a evolução e junto com as notas aldeídicas mantém flores, e parte das notas frutais, vívidas por longo tempo.
A sensação de bouquet polvilhado com dosada canela se transforma gradativamente em poeira seca de lenho empilhado ao sol.
Sillage e fixação típicas desta perfumaria exuberante caracterizam seu aroma sensual e noturno, bastando duas gotas para que revele a riqueza da composição.
Muitos são os perfumes desta década variando em torno deste tema oriental e especiado; entretanto Rumba apresenta diferencial no prolongado e aldeídico acorde de topo, constituído por frutas suculentas e frescas em harmonia com flores poderosas.
Sofisticada, dona de saliente e explícito aroma enfumaçado, animalic é fragrância "datada" e como muitas do gênero está relegada ao ostracismo ditado pelos caprichos da moda.

Fotos - Publicidade Rumba by Balenciaga de Perso Numericable; Cafezinho de Arte-Aberta; Drink Cuba libre de Grill Grinds;

Família olfativa: Oriental amadeirado,1988
Gênero - feminino
Perfumista: Jean Claude Ellena e Ron Winnegrad
Rastro - Intenso
Fixação - Ótima

Pirâmide Olfativa:
  • Topo - Mirabelle( variedade de ameixa amarela), pêssego, ameixa vermelha
  • Coração - Orquídea, magnólia, jasmim e angélica
  • Base - Patchuli, baunilha, musgo de carvalho, couro
ANGELICA


Polianthes tuberosa L, conhecida no Brasil como angélica, angélica-de-bastão, angélica-dos-jardins, jacinto-da-índia é planta bulbosa de folhas compridas, flores grandes, brancas e perfumadas muito comum nos buquês de noivas.
Espécie da família Amarylidaceae, plantas nativas foram encontradas no México e nos Andes, sendo levadas à Europa e Ásia em torno de 1500.
Os astecas nomeavam a flor de Omixochitle.
Na índia, onde tornou-se importante nos rituais de casamento, é referida como Rajnigandha nome semelhante a Raat Ki Rani (rainha- da- noite) que é outra espécie botânica - Cestrum nocturnum.
Nomes de pronúncia parecida, uso em cerimônias, e o fato de abrirem suas flores ao anoitecer, com fragrância intensa, levou-as a serem consideradas a mesma espécie, o que é um equívoco.
Anual (deve ser replantada) fornece óleo essencial de aroma, persistente, exótico e doce utilizado na perfumaria, nos acordes de corpo, devido a volatilidade mediana.
Óleo essencial obtido pelo processo de enfleurage, quando tratado com etanol, é convertido numa manteiga perfumada ou concreto que origina o absoluto.
Vários perfumes famosos como Poison de Christian Dior utilizam generosamente a tuberosa, cujo aroma é intenso e intoxicante.
Na aromaterapia é considerada tônica, estimulante e fortalecedora do sistema imune.
Durante muito tempo acreditou-se que a fragrante flor poderia estimular a libido.
Na Ítalia, jovens eram proibidas de circular em jardins onde houvesse profusão da flor para evitar a indução de idéias eróticas.
Rumores históricos afirmam que Madame de la Vallière, amante de Louis XIV forrava sua cama de tuberosas para provar à rainha que não estava grávida, visto que a fragrância costumava incomodar gestantes provocando tonturas.
O nome tuberosa deriva do termo em latim-tuberosa que se refere ao sistema radicular em tubérculos, presentes em vasta gama de espécimes vegetais.

VÍDEO: Bee Gees - How Deeps Is Your Love ( Center Stage 1993) - Youtube

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