
" Por mim eu sei que há confidências ternas,
um poema saudoso angustiado,
se uma rosa de há muito emurchecida,
rola acaso de um livro abandonado.
O espírito talvez dos tempos idos
desperta ali como invisível lume...
E o poeta suspirando:
- Bem me lembro... era este o seu perfume!"
Falava de amor o poeta Antonio Castro Alves, embora quem leia possa interpretar com o que lhe vem à alma.
Falava de saudades, de amores vividos ao longo do tempo. Talvez de primeiros amores.
Quantos há ! Todos inesquecíveis.
Um destes primeiros amores chegou após a adolescência, signature parfum como ainda não havia acontecido.
Minha predileção era inconstante e passageira, imatura, quando, no início dos anos 80, entrei numa perfumaria fina e encontrei um lançamento da casa Rochas.
Existe química com objetos ? Isto pode ser racionalizado?
A atração foi irresistível, pois encantei-me com aquele frasco retangular de tampa oblonga desproporcional, deselegante e simultâneamente bela, encerrado numa caixa vermelha e clássica, evocando paixões.
A fragrância ?
Como explicar Mystere se nunca consegui compreendê-lo... Apenas soube que era meu assim que acariciou a pele.
Complemento perfeito, último, e imprescindível como afirmava Chanel.
Sensual e intensamente feminino com seus acordes exóticos, resinosos aveludados e secos, fugindo dos padrões florais, aromáticos leves e almiscarados, que eram tão frequentes no meu círculo de referências.
Conquistou-me desde as primeiras notas, onde o cortante e cotidiano cítrico perdia espaço para um inusitado gálbano, temperado por coentro e pela rara cascarila.Quente e singular, envolvia com o que sempre me pareceu cheiro de boneca nova ao sair da caixa.
Iniciava lúdico e provocante.
Premissa de resinas e madeiras abria-se num bouquet discreto porém exótico.Ylang ylang e rosas personalizadas pelo apimentado cravo, pelo frescor de lírios e violetas, contribuiam com uma disfarçada doçura.
Contudo flores não eram a atração principal!
O sofisticado coração de Mystere estava nas gum resinas, na cascarila e madeiras que traziam a maciez de couro, curtido com ervas de uma natureza sombreada, obscura e instrigante.
Raízes aromáticas como a de íris, vetiver, folhas de patchuli e artemísia, benjoim, mirra doce e musgos executavam uma partitura complexa, rica e animalic.
Sillage e fixação poderosas, não raro persistia de um banho para outro, e sob vapores quentes se desprendia da pele revelando novamente seu poder e encantamento.
Como explicar esta magia de uma fragrância que interage com o corpo e o espírito?
Um toque mais doce e floral, menos terroso e animalic, menos enfeiticante.
Certamente aquele cálido e sedutor aroma não é possível atualmente, devido à falta de matéria prima, cuja extração não é permitida ou está restrita.
Um pequeno e incontestável sacríficio pelo bem estar das espécies.
Belos perfumes se foram. Outros seguirão o mesmo caminho. Seja pela falta de sucesso comercial ou ausência de componentes.
Alguns ficarão em nossas memórias de forma definitiva, como Mystere, que continuará indecifrável e insubstituível.Somente a recordação enigmática, diluída e etérea permanecerá, provocando uma vaga nostalgia, até não sobrar mais nenhuma gota.
Uma bela melodia a pairar no ar.
Afinal, como dizia Marcel Rochas - " O perfume é a música dos corpos"

COMENTÁRIO VIP
EU GOSTO
Falar sobre Mystere, para mim, supera a descrição do evoluir do seu aroma.
Está muito além de ser apenas uma fragrância de preferência e acredito ser impossível descrevê-lo desapaixonadamente.
Sua lembrança é cercada de carinho e certa melancolia, pois ele foi o preferido da minha mãe por muitos anos, até sua venda ser interrompida por aqui.
Foi com grata surpresa que me deparei com um, durante uma viagem.
Claro, não tive dúvidas! Arrematei dois frascos.
Assim, como várias fragrâncias que marcaram a década de 70, Mystere debulha-se em sândalo, patchuli e carvalho, temperado com notas resinosas e especiarias.
As florais que se pronunciam são discretas, pitadas a atenuar uma presumida agressividade.
É um perfume capaz de sintetizar a determinação, sensualidade, sofisticação e diligência de uma mulher que nasceu pronta para enfrentar todos os desafios, de correr com os lobos, atingindo o ápice de suas qualidades, quer carregue o frescor dos primeiros anos ou a intensidade das vivências acumuladas na maturidade.
A melhor imagem que representa tudo o que esta obra-prima guarda em seu interior é o instante que antecede o ataque de uma grande felina, onde ela, expectante, aguarda silenciosa qualquer vacilo de sua presa, sem perder o porte ou encanto.
Para mim este é o grande mistério de Mystere. ALINE
Fotos : Vintage publicidade de Okadi.com; Frasco de Mystere de flickr.
Família Olfativa: Sharp Oriental (chypre couro), 1978
Perfumista: Nicolas Mamounas
Frasco: Robert Grai, Serge Mansau
Rastro: Intenso
Fixação: Excelente
Pirâmide Olfativa: Em torno de 200 substâncias constituintes
- Topo - Gálbano, coentro, cascarilla, jacinto, madressilva
- Corpo - Rosa da Bulgária, ylang ylang,violeta, narciso, jasmim, tuberosa ou angélica, lírio, cravo, alecrim, íris, magnólia
- Base - Cipreste, madeira de cedro, sempre-viva, almíscar, civeta, patchuli, stirax (benjoim, musgo de carvalho, gum resinas.
A história deste perfumista está entrelaçada com a da casa Rochas .
Marcel Rochas designer de modas e sua esposa Helene, iniciaram uma linha de perfumes que complementava as criações de moda.
Fragrâncias exclusivas como Air Jeune, Audace e Avenue Matignon eram vendidas com exclusividade no atelier.
Em 1944, o primeiro grande sucesso - Femme - criação do notável Edmond Roudnitska, era envasado num frasco Lalique, inspirado na voluptuosidade da silhueta de Mae West cliente fiel do modista.
Listas de espera indicavam as clientes que conseguiriam um frasco do cobiçado perfume, durante o período crítico do pós-guerra.
Com seu falecimento em 1954, Helene Rochas tomou a frente dos negócios desenvolvendo as linhas de perfumaria e cosméticos.
Surgiu o segundo sucesso - Madame Rochas, do perfumista Guy Robert. Segundo Helene Rochas era perfume ideal para Jaqueline Kennedy,futura primeira dama, em campanha presidencial do marido.
A senhora Rochas, após conquistar o jet set internacional pelos hábitos requintados e elegância, vendeu a marca para uma empresa francesa, por 40 milhões de dólares.
Antes disto legou outro grande sucesso. Das mãos de Nicholas Mamounas saiu EAu de Rochas - 1970, um clássico que perdura até hoje.
Seguiram-se Mystere em 1978, Macassar em 1980, Byzance 1987, Globe 1991, e Eau de Rochas Homme 1993.
A célebre dama em 1982 voltou a marca como consultora de imagem.
Atualmente o nez Rochas é Jean-Michel Duriez com uma bagagem de criações para Jean Patou, Gucci, Dolce & Gabbana e Hugo Boss.
Grandes perfumes marcaram o crescimento da maison, frutos de longas pesquisas a perdurar anos. Trabalho minucioso onde a batuta do nez regia a execução e determinava uma fragrância inovadora.
Outros tempos onde o único excesso era a qualidade.
Nada comparável às hipérboles atuais, como cita o conceituado perfumista Michel Roudnitska em recente entrevista. onde discorre sobre os exageros em abundantes e frequentes similares, nas várias edições especiais de um sucesso, nas inúmeras restrições aos produtos naturais que a longo prazo resultarão no seu desaparecimento, pela falta do incentivo em cultivo e produção.
Concordamos em gênero e espécie.

PERFUMES ROCHAS
Avenue Matignon-1936
Femme- 1945
Mousseline- 1948
Eau de Verveine- 1948
Moustache- 1948
Mouche- 1949
La Rose de Rochas- 1960
Madame Rochas-1960
Monsieur Rochas-1969
Rau de Rochas-1969
Eau de Rochas-1970
Audace-1971
Mystere de Rochas 1978
Macassar- 1980
Lumiere-1984
Byzance-1987
Globe-1991
Eau de Rochas pour Homme 1993
Tocade-1994
Byzantine- 1995
Fleur d'Eau-1996
Eau de Fan-1996
Tocadilly-1997
Alchimie- 1998
Rochas Man-1999
Aquaman- 2001
Aquawoman- 2002
Absolu-2002
Rochas Lui-2003
Poupee- 2004
Lui-2004
CASCARILLA ou CROTON
Oleo amarelo âmbar de odor especiado, confortável, terroso e agradável é obtido de Croton eleuteria ( Croton glabellus, Croton slonei), pela destilação da casca.Pequena árvore originária das Bahamas, cujas folhas ovais e lanceoladas apresentam brilho metálico, floresce em pequenas flores de pétalas brancas e perfumadas.
A casca, compacta e frágil, quando rompida descolore até o amarelo pálido. Muitas vezes está acompanhada de líquens (musgo). Seu odor é peculiar agradável e o gosto ligeiramente picante.
Contém cerca de 1 a 3% de óleos voláteis rico em cascarilina e goma resina ligeiramente amarga que pode ser extraída com álcool.
Na composição, além da resina, destacam-se ligninas e taninos. As substâncias responsáveis pelo aroma são terpenos e diterpenos que incluem pineno, vanilina, d-limonene e thujene.
Apreciado condimento, na culinária é usada para aromatizar e conferir sabor aos licores e bebidas do tipo Campari.
Utilizada em Medicina Alternativa para dispepsias, naúseas e flatulências do Aparelho Digestório, e fluidificante nas bronquites e tosses.
Tônico suave atua benéficamente sobre a mucosa gástrica, com efeito adstringente. Igualmente beneficia o Sistema Nervoso.
Não são relatados casos de irritação ou toxidez mas o uso exagerado pode provocar desconforto no estômago e efeito narcotizante.
Na indústria cosmética emprega-se na fabricação de sabonetes, cremes e perfumes.
Em inglês os sinônimos são: Sweetwood bark, sweet bark, bahama cascarilla, aromatic cascarilla, quinquina, false quinquina.
No francês é comumente conhecida como: Boix doux, croton à cascarille, cascarille officinale, faux quinquina.
O gênero Croton que abrange em média 700 espécies pertence à família Euphorbiaceae, cujo estudo nacional mais completo ainda é realizado por Müller (1874) na "Flora brasiliensis" onde dados de renomados botânicos identificam espécies do Brasil e outros países da América do Sul.
Foto: Croton eleuteria de Botanischen Gartens Braunschweig-Institute für Pflanzenbiologie
VÍDEO:Publicidade Mystere com Sharon Stone - 1984

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